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Nosso país e nossa história

Carta-Testamento - O maior libelo da história do Brasil

No início de agosto de 1954, tudo indicava que o governo do presidente Getúlio Vargas havia derrotado a conspiração golpista que começara antes mesmo de sua posse (a quatro meses das eleições presidenciais, Carlos Lacerda escreveu em seu jornal, a Tribuna da Imprensa: “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Em junho, uma tentativa de impeachment não conseguira o apoio nem ao menos de toda a UDN – fora derrotada por 136 votos contra e 35 votos a favor. Mas, em 5 de agosto, os golpistas conseguiram um cadáver, o de um major que fazia a segurança de Lacerda – e uma farsa, a história de um suposto atentado contra Lacerda, hoje completamente insustentável, após o trabalho dos repórteres Palmério Dória e Hamilton Almeida Filho (“Mataram o Presidente!”, Editora Alfa-Omega, 1978) e do pesquisador Ronaldo Conde Aguiar (“Vitória na Derrota – A Morte de Getúlio Vargas”, Ed. Casa da Palavra, 2004). Para uma síntese, ver HP, 28/08/2005.

No dia 24 de agosto, o presidente Getúlio sacrificava sua vida – e sua carta-testamento se tornaria o documento mais importante, mais candente e mais profundo de toda a História do Brasil. É este texto que hoje republicamos. Getúlio havia explicitado a posição que posteriormente nortearia seu governo em maio de 1947, discursando no Senado. Disse ele:

“O que existe por parte de alguns homens em nosso país, arvorados em líderes da economia nacional, é apenas um acentuado complexo contra o trabalhador brasileiro. Acham que ele não deve ser operário nas fábricas, que o Brasil não deve ter indústria, que é indispensável destruir toda e qualquer possibilidade de trabalho fora dos campos. O Brasil, no conceito desses homens, deve ser uma nação essencialmente agrícola. O operário deve mudar de profissão, pelo que pretendem, ou então voltar ao regime de escravatura”.

Durante a campanha eleitoral, tornou mais nítidos os seus pontos de vista. Em 10 de agosto de 1950, discursaria em São Paulo:

“O que existe, defendida intransigentemente pelos velhos partidos, com novos rótulos, é a democracia política, baseada em leis que lhe asseguram o gozo de privilégios para oprimir e explorar o trabalho alheio. O trabalhismo brasileiro surgiu, assim, como uma afirmação contra a máquina montada em nome da liberdade política, com sacrifício da igualdade social”.

A questão fundamental era clara para ele há muito tempo. Em 1944, ao se referir às relações econômicas com os EUA no pós-guerra, havia enunciado:

“Não podemos admitir a hipótese de que terminada a guerra e depois de tantos sacrifícios venham a persistir nas relações entre os povos os mesmos processos condenáveis de dominação econômica. (…) E nem vale a pena pensar em que desorganização caótica, de revoluções e perturbações, mergulhará o mundo de novo se não for ouvida a voz da razão e não nos convencermos de que não é possível a hegemonia de nenhum povo ou raça, isoladamente, sobre os demais”.

A eleição, além da vitória esmagadora de Getúlio, confinou a UDN a três governos estaduais - Alagoas, Mato Grosso e Paraná. Num quarto, o Pará, a UDN venceu em coligação com o PSP, de Ademar de Barros, que apoiava Getúlio.  Apesar disso, a campanha golpista começou logo em seguida – para isso, funcionava no Rio de Janeiro o “Escritório Monsen”, uma suposta empresa de advocacia pertencente à Standard Oil, que tinha como um de seus principais membros o genro do diretor da Hollerith, uma subsidiária da IBM.

A questão, confessada depois pelo próprio Lacerda e por Eugênio Gudin – o mais notório defensor da nossa suposta “vocação agrícola” - era impedir que a política de Getúlio se tornasse “permanente”, se consolidasse como o programa do Estado e da Nação brasileira naquela nova fase da nossa história. Para isso, a conspirata golpista seguiu por três lados: a tentativa de isolar o governo das Forças Armadas; a tentativa de privar Getúlio de qualquer órgão de comunicação com o povo; e a tentativa de isolá-lo do empresariado nacional.

O primeiro episódio não poderia ser mais claro sobre o caráter dos golpistas: a campanha contra o ministro da Guerra, general Newton Estillac Leal, por sua oposição a que o Brasil enviasse tropas para ajudar os EUA na agressão à Coreia. Em dezembro de 1951, o presidente decidiu, definitivamente, que o Exército Brasileiro não iria coadjuvar a agressão. No mesmo mês, Getúlio enviou ao Congresso o projeto inicial de criação da Petrobrás. Isso iniciaria dois anos de luta pela aprovação. Em 31 de dezembro de 1951, o presidente denunciou a escandalosa remessa de lucros das empresas estrangeiras. Logo em seguida, a 3 de janeiro de 1952, ele assinaria um decreto limitando em 10% dos lucros as remessas para o exterior. Os EUA, imediatamente, ameaçaram suspender todos os financiamentos ao Brasil. Mas o presidente manteve o decreto. Enquanto isso, a oposição dos militares brasileiros a que fossem morrer pelos norte-americanos na Coreia e seu apoio à Petrobrás foram tachados de “comunistas”. A questão era atrair, neutralizar e intimidar oficiais com essa cruzada, para fazer com que o Ministério da Guerra ficasse em mãos cada vez menos firmes – em 1952, Estillac Leal sai do ministério.

Era impossível, no entanto, derrubar o governo sem isolá-lo do povo, portanto, tentar destruir o único jornal com que Getúlio contava, a “Última Hora”, de Samuel Wainer. Em abril de 1953, Lacerda publicou uma acusação falsa, a de que Wainer não havia nascido no Brasil: a Constituição de 46 proibia a propriedade de órgãos de comunicação por estrangeiros ou brasileiros naturalizados. O serviçais do escritório da Standard Oil acusavam Wainer de ser... estrangeiro. Em seguida, a acusação passou a ser a de que o jornal tinha obtido créditos bancários para se viabilizar. Exigiam da empresa que fosse a única no mundo a sobreviver sem empréstimos. Por fim, acusavam o governo de favorecer o jornal. Com sua falta de escrúpulos, Lacerda inventou um crédito de Cr$ 300 mil que teria sido concedido pelo Banco do Brasil ao “Última Hora” sem que Wainer tivesse que pagá-lo. Além disso, um aval cambial para importação de papel de imprensa, que o BB estava, por lei, obrigado a conceder, foi chamado de “empréstimo”.

No entanto, a “Última Hora” era o jornal que devia menos ao BB – a dívida executável era de 8 mil cruzeiros. Já os “Diários Associados”, de Chateaubriand, deviam CR$ 162 milhões ao BB; “O Globo”, somente nos dois anos anteriores, tinha obtido US$ 1.022.211,00 do BB em sucessivos empréstimos, dando sempre como garantia uma mesma velha impressora, e sem quitar durante esse período sequer o primeiro desses empréstimos. O próprio jornal de Lacerda, insignificante quanto à tiragem, era devedor do BB.

O próximo alvo foi o Ministério do Trabalho, encabeçado por João Goulart. A 8 de março de 1953, o “The New York Times” iniciou, em editorial, a campanha contra Jango, mais jovem ministro da História da República, logo copiada pela imprensa golpista interna. Em seu primeiro ano de governo, Getúlio havia aumentado o salário mínimo – que ficara sem nem ao menos reajuste durante oito anos - de 380 cruzeiros para 1.200 cruzeiros. Agora, na iminência de outro aumento, a ser concedido em maio de 1954, foi inventada uma peculiar teoria, segundo a qual o aumento não poderia ultrapassar a inflação, isto é, não poderia haver aumento real, sob pena do empresariado ir à falência.

Diante da gritaria que conseguiu envolver setores do empresariado e alguns militares de prestígio - o chamado “manifesto dos coronéis” -, Jango resolveu demitir-se para privar a conspiração de um alvo e impedir que o governo fosse paralisado. Mas o aumento de 100% foi decretado no dia 1º de maio de 1954 - e nenhuma empresa faliu por causa dele. Pelo contrário, representou a expansão do mercado interno para essas empresas.

Nesse primeiro de maio, olhando para algumas décadas mais tarde, Getúlio afirmou:
  “Constituís a maioria. Hoje estais com o governo. Amanhã sereis o governo. A satisfação dos vossos reclamos, as oportunidades de trabalho, a segurança econômica para os vossos dias de infortúnio, o amparo às vossas famílias, a educação dos vossos filhos, o reconhecimento dos vossos direitos, tudo isso está ao alcance das vossas possibilidades. Não deveis esperar que os mais afortunados se compadeçam de vós, que sois os mais necessitados. Deveis apertar a mão da solidariedade, e não estender a mão à caridade. Trabalhadores, meus amigos! Com consciência da vossa força, com a união das vossas vontades e com a justiça da vossa causa, nada vos poderá deter”.

 

CARLOS LOPES

 

CARTA-TESTAMENTO

 

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.

 

GETÚLIO VARGAS

 

Texto estraído da Hora do Povo - Edição 2.893 de 2010

O 13 de maio foi a vitória da luta de Zumbi dos Palmares

A revolução abolicionista-republicana foi o movimento que constituiu, definitivamente, o povo brasileiro. Nenhum outro foi tão importante para definir a fisionomia da Nação

 

Para Eduardo de Oliveira, herói sereno do nosso povo

 

Professor Eduardo de OlivieraO 13 de maio foi sempre uma das datas mais estimadas pelo povo brasileiro, somente comparável em popularidade à da própria Independência. Certamente, nós, brasileiros, temos toda razão em ter em tão alta conta a Abolição. O Brasil é, antes de tudo, um país e uma Nação construída pelos negros. Esta foi a base de toda a luta abolicionista, tal como observou, cinco anos antes do 13 de maio de 1888, Joaquim Nabuco: "a raça negra nos deu um povo. O que existe até hoje sobre o vasto território que se chama Brasil foi levantado ou cultivado por aquela raça; ela construiu o nosso país. Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar... a raça negra fundou, para outros, uma pátria que ela pode, com muito mais direito, chamar sua".

O 13 de maio foi a vitória da luta da qual Zumbi dos Palmares – assim como Tiradentes em relação à Independência – foi o protomártir. Nenhuma parte, nenhum setor da sociedade ficou fora dela – a cultura brasileira teve em Castro Alves o seu expoente máximo; os militares afirmaram a consciência nacional ao recusar-se a perseguir os escravos, declarando: "não somos capitães do mato"; a Abolição superou todas as divisões partidárias e, até mesmo, étnicas, de Luiz Gama e José do Patrocínio, negros e republicanos, a André Rebouças, negro e monarquista, Silva Jardim, branco e republicano, até Joaquim Nabuco, branco, monarquista e filho de um senhor de engenho.

Em suma, a revolução abolicionista-republicana foi o movimento que constituiu, definitivamente, o povo brasileiro. Nenhum outro foi tão importante para definir a fisionomia da nacionalidade. Neste sentido, a Revolução de 30 é um desenvolvimento de 1888 e 1889, de certa forma a retomada da revolução abolicionista após a derrubada da república oligárquica, aspecto presente até mesmo na formação de seu líder, Getúlio, filho direto do abolicionismo republicano.

Mas é certo que Abolição e República não foram bandeiras que cami-nharam sempre juntas, apesar de, já no século XVIII, Tiradentes as ter vinculado. Somente em 1887 o Partido Republicano iria assumir oficialmente a Abolição, com a adesão da última seção que ainda resistia, o Partido Republicano Paulista, que futuramente iria dominar a República Velha. Mas os principais propagandistas republicanos – como Silva Jardim - cresceram junto ao povo por serem os mais firmes agitadores da Abolição. Foi o abolicionismo que forjou a unidade nacional. Abolição e República tornaram-se, cada vez mais, convergentes. O primeiro a novamente vinculá-las foi um negro, Luiz Gama, na Convenção republicana de Itu.

Luiz Gama sabia, por experiência própria, do que falava quando denunciou: "Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade".

Nascido livre há exatos 170 anos, Luiz Gama foi separado aos sete anos da mãe, Luiza Mahin, líder da revolta dos malês, deportada para a África. Aos 10 anos foi vendido como escravo pelo próprio pai, um fidalgo português arruinado por dívidas de jogo. Revendido a um contrabandista, percorreu a pé, num grupo de cem outros negros, o caminho da Serra do Mar entre Santos e Campinas, para ser entregue ao novo "senhor". Segundo seu próprio relato, enfrentou em São Paulo outro preconceito, por ser baiano – os escravos nascidos na Bahia eram então considerados os mais rebeldes, a ponto da palavra "baiano" ter-se tornado pejorativa para os escravocratas.

Aos 18 anos, Luiz Gama fugiu de seu último "senhor" e entrou no Exército. Advogado, foi defendendo um escravo diante do Tribunal do Júri que pronunciou a sentença de morte da escravidão: "aquele negro que mata alguém que deseja mantê-lo escravo, seja em qualquer circunstância for, mata em legítima defesa". Não dizia isso por ódio, mas porque era verdade. Amigo – e colega na redação de um jornal - de Rui Barbosa, de Joaquim Nabuco e outras grandes personalidades da época, Luiz Gama foi a figura mais avançada da luta abolicionista.

No entanto, desde Tiradentes a Abolição já era a questão fundamental da luta pelo desenvolvimento, industrialização e emancipação do Brasil. A Independência, que se consolidou tendo como classe dominante os senhores de escravos e o Estado que os representava – a monarquia – a tinha colocado em questão na palavra de seu próprio Patriarca, José Bonifácio, dirigindo-se à Assembleia Constituinte, em 1823, na apresentação de seu maior projeto.

Como afirmou José Bonifácio, a escravidão era uma herança insuportável da colonização, a comprometer a unidade e a própria existência da nova Nação: "Se o antigo despotismo foi insensível a tudo, assim lhe convinha ser por utilidade própria: queria que fôssemos um povo mesclado e heterogêneo, sem nacionalidade, e sem irmandade, para melhor nos escravizar".

Assim, a Abolição era absolutamente imprescindível para que o novo país, então com apenas um ano de idade, se consolidasse e o povo brasileiro completasse a sua formação: "... é tempo que vamos acabando até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes... cuidemos pois desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo e compacto".

Respondendo ao cretino "argumento" dos escravagistas, segundo o qual a Abolição seria um atentado ao seu "direito de propriedade", José Bonifácio fez, então, a maior denúncia da escravidão em sua época, colocando a propriedade no devido lugar, subordinada aos interesses sociais e nacionais: "Não vos iludais, senhores, a propriedade foi sancionada para bem de todos, e qual é o bem que tira o escravo de perder todos os seus direitos naturais, e se tornar de pessoa a coisa, na frase dos jurisconsultos? Não é pois o direito de propriedade, que querem defender, é o direito da força, pois que o homem, não podendo ser coisa, não pode ser objeto de propriedade. Se a lei deve defender a propriedade, muito mais deve defender a liberdade pessoal dos homens, que não pode ser propriedade de ninguém sem atacar os direitos da providência, que fez os homens livres, e não escravos... Este comércio de carne humana é pois um cancro que rói as entranhas do Brasil".

Antes de tudo, a Abolição correspondia aos interesses nacionais – a rigor, ela é o interesse nacional, não só o interesse da justiça, mas o interesse do país pelo progresso econômico e pelo avanço da industrialização, impossível com a escravidão que "só serve", ressalta José Bonifácio, "para obstar a nossa indústria... basta lembrar que os senhores que possuem escravos vivem, em grandíssima parte, na inércia... as máquinas que poupam braços, pela abundância extrema de escravos nas povoações grandes, são desprezadas".

O abolicionismo era, portanto, a luta contra o atraso, a estagnação e a ignorância. O combate foi extremamente árduo. Não teve, nem de perto, um único traço de concessão, até porque é uma idéia ridícula a de conceber uma classe inteira de senhores de escravos dando a estes, como concessão, a liberdade.

As leis antiescravagistas foram sistematicamente desrespeitadas – como denunciaram os abolicionistas, a maior parte delas era pura encenação: proibiu-se o tráfico de escravos, mas não a propriedade de escravos contrabandeados; a lei dos sexagenários concedia liberdade aos escravos que completassem 62 anos, isto é, os mortos; a lei do ventre livre concedia liberdade à criança, mas não à mãe nem ao pai: onde iria viver essa criança "livre" senão na senzala, como escrava?

Os negros, os continuadores de Zumbi, estiveram todo o tempo, a exemplo de Luiz Gama, à frente desse movimento. Mais do que isso, manifestaram-se em massa. A própria declaração dos militares recusando-se a persegui-los foi uma resposta à tentativa do governo de usar o Exército para reprimir os quilombos formados pelos negros que saiam das fazendas. A tal ponto foram isolados os escravagistas que o próprio Estado que os representara desde a Independência foi obrigado a decretar a Abolição – e, com isso, como disse o inconformado Barão de Cotegipe, escravagista renitente, decretou também seu próprio fim.

É verdade que os vencedores do 13 de maio foram marginalizados durante a República Velha – mas exatamente porque a oligarquia, com seu servilismo aos banqueiros e especuladores ingleses, bloqueou o desenvolvimento e a industrialização do país, continuação natural da Abolição. Foi necessária a Revolução de 30 para que os negros e todo o povo brasileiro conquistassem outra vez o lugar que lhes cabe. Quando Getúlio decretou, entre outras inúmeras medidas, a lei estipulando que pelo menos dois terços dos trabalhadores das empresas teriam que ser brasileiros, começou a ser quebrada essa marginalização. Durante o período de Getúlio, o 13 de maio tornou-se festa nacional; o samba tornou-se a mais universal expressão cultural brasileira; as escolas de samba e seus enredos nacionais tornaram-se o ponto culminante do carnaval; e foram proscritas uma série de perseguições e discriminações contra os negros – entre elas, a que proibia a capoeira: a licença que Getúlio assinou para que o famoso mestre Bimba abrisse a primeira academia de capoeira do país é um símbolo imperecível dos ideais e da luta que o 13 de maio representa na consciência nacional.

Hoje, esse é o caminho que retomaremos – e já retomamos – para construir um Brasil livre e justo.

 

CARLOS LOPES

Texto extraído da Hora do Povo

Revolução de 1924 – São Paulo Cidade Aberta

 “Nunca vi morte tão de perto como na madrugada de hoje”

 

1.      Antecedentes

2.      Personagens

3.      1º  Plano Geral de Campanha

4.      2º  Plano Geral de Campanha

5.      São Paulo em 1924

6.      O Início do Levante

7.      Reação do General Abílio de Noronha

8.      A Disputa da Capital

9.      Miguel Costa Confronta Isidoro

10.  Acordo com a Associação Comercial e a Prefeitura

11.  Chuva de Bombas sobre São Paulo

12.  A Intensificação do Bombardeio

13.  A Morte de Joaquim Távora

14.  Batalhões Patrióticos

15.  Aviação Ataca São Paulo

16.  Condições de Paz

17.  Revoltosos Derrotam Tanques

18.  Mais Destruição

19.  Com o Dr. Carlos de Campos em Guaiaúna

20.  A Retirada Estratégica

21. Epílogo

 

1. Antecedentes

A marcha heróica dos 18 do Forte, arremetendo contra 4.000 mil soldados da força governista, encerrara a primeira Revolução Tenentistaocorrida nos estados do Rio de Janeiro e Mato Grosso, em 5 de julho de 1922.

Dois anos depois, mais experientes e mais fortalecidos, os tenentes voltariam à carga, retomando a ofensiva. Desta vez o centro do levante seria a cidade de São Paulo. A oligarquia cafeeira que assumira o controle da República, com Prudente de Moraes, em 1894, não teria mais condições de exercer tranquilamente o seu poder autocrático. Seguidamente contestada pelos movimentos cívico-militares, seria apeada do poder em 1930, levando de roldão o império da fraude eleitoral, do boicote à industrialização, da manutenção artificial dos lucros do café, da afrontosa submissão aos interesses do imperialismo inglês.

As articulações entre militares e civis, para a Revolução de 1924, começaram no primeiro semestre do ano anterior. Estimulados pela adesão do ex-presidente Nilo Peçanha, e empurrados pela perseguição do recém-empossado governo federal, os tenentes tecem as malhas de uma vasta conspiração, envolvendo principalmente os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, o Sul de Minas Gerais e o Rio de Janeiro.

Nos últimos meses de 1923, o capitão Joaquim Távora assume de forma incansável o comando das articulações. Estabelece contato com oficiais sediados no Sul, e percorre todas as unidades do interior de São Paulo, Mato Grosso e Rio de Janeiro.

Távora havia participado do levante de 1922, no estado do Mato Grosso. O tenente João Alberto, que o conhecera na prisão, onde conviveram de julho a dezembro daquele ano, assim o descreveu:

“Alto de porte, calva à mostra, juntava o vigor físico à bravura moral... Socialista ardoroso, explicava-nos os acontecimentos políticos à luz da economia. Já preparava, nessa época, a próxima revolução”.

         

2. Personagens

Em São Paulo, Joaquim Távora fora morar na casa do Tenente Custódio de Oliveira, do 2º Grupo Independente de Artilharia Pesada, de Quitaúna.

Transformada em autêntico quartel-general revolucionário, a residência da Rua Vauthier, número 27, sediava as reuniões dos líderes do levante. Frequentavam-na o major Miguel Costa, do Regimento de Cavalaria da Polícia Militar  - denominada, na época, Força Pública Paulista -, e diversos oficiais do Exército que serviam em unidades sediadas em São Paulo como o major Cabral Velho (fiscal do 6o Regimento de Infantaria, de Caçapava), o capitão Newton Estilac Leal (chefe de material bélico da 2ª Região Militar), os tenentes Asdrúbal Gwyer e Castro Afilhado - ambos do 4o Batalhão de Caçadores, situado no bairro de Santana.

Outro aparelho utilizado para discussões sobre os planos revolucionários era a residência dos tenentes Ricardo Holl e Vítor César da Cunha Cruz, na Travessa da Fábrica, número 6. A exemplo de Joaquim Távora, ambos haviam se transferido para São Paulo. Outros militares que também se encontravam fora da tropa, em virtude dos processos judiciais originados pelo levante de 1922, tomaram opção idêntica, visando fortalecer o comando revolucionário. Entre eles, figuram os tenentes Joaquim Nunes de Carvalho, Otávio Guimarães, Eduardo Gomes, Juarez Távora – irmão mais novo de Joaquim – e os ex-alunos da Escola Militar de Realengo, Emídio da Costa Miranda e Diogo Figueiredo Moreira Jr.

A escolha de um militar de alta patente, que assumisse publicamente o comando das operações no momento da deflagração do levante, era considerada pelos revolucionários um elemento estratégico indispensável ao êxito do movimento. Fixaram-se em Isidoro Dias Lopes, general do Exército, reformado, que mantinha conversações com o ex-presidente Nilo Peçanha, desde 1923.

 

3. 1º  Plano Geral de Campanha

O primeiro Plano Geral de Campanha, elaborado por Joaquim Távora, pretendia antecipar-se ao golpe preparado pelo governo federal contra J.J. Seabra, que procurava manter o controle sobre o governo da Bahia apoiando Raul de Leoni à sua sucessão. Seabra era o governador do estado – na época, o termo era presidente do estado. Fora candidato à vice-presidência da República, em 1922, na chapa encabeçada por Nilo Peçanha contra o candidato situacionista Artur Bernardes. A luta para impedir a vitória e, em seguida, a posse de Bernardes, resultado de um processo eleitoral estruturalmente fraudulento, fora o estopim da Revolução de 1922.

Segundo o plano, o movimento deveria ser deflagrado no dia 28 de março, com início simultâneo no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Sul de Minas, podendo, em seguida, receber o apoio de elementos das guarnições do Rio de Janeiro, Mato Grosso e Goiás.  O núcleo principal era a cidade de São Paulo. As guarnições do Exército, circunvizinhas da capital, em ação conjugada com elementos da Polícia Militar, a tomariam, enquanto os corpos de tropa aquartelados no Vale do Paraíba, reforçados por elementos vindos do Sul de Minas, avançariam até Cruzeiro, abrindo as portas para a invasão do Rio de Janeiro. Às forças paulistas caberia também a missão de barrar, na costa Leste da Serra do Mar, a progressão das unidades contra-revolucionárias, partidas de Santos. A rebelião no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná visava, principalmente, impedir que o contingente situado em Porto Alegre marchasse contra São Paulo ou que o mesmo fosse feito por elementos desembarcados em Paranaguá e São Francisco.

O principal fator que bloqueou e adiou sine die a execução do projeto foi o que Juarez Távora denominou, diplomaticamente, de “resistência passiva de um dos conspiradores mais graduados e influentes entre as guarnições comprometidas”. Na verdade, a defecção do major Bertoldo Klinger

O mês de março, conta ainda Juarez, “findava, assim, com uma rajada de desalentos”. Klinger desertara, Seabra fora humilhado e forçado a abandonar o governo da Bahia, um dia antes de expirar seu mandato. Quase simultaneamente, se apagava do cenário nacional o vulto estimulador de Nilo Peçanha. Morto em 31 de março de 1924, Nilo foi enterrado levando sobre o seu coração um dos pedaços do pavilhão do Forte Copacabana, que o tenente Siqueira Campos havia dividido em 29 partes para que cada combatente pudesse tê-lo consigo no momento final da luta. Nilo não apoiara a insurreição de 1922, porém, logo no momento seguinte, desdobrou-se na defesa política e jurídica dos revoltosos, radicalizando paulatinamente suas posições.

 

4. 2º  Plano Geral de Campanha

Mas os reveses não desanimaram os tenentes. Joaquim Távora trabalha com energia redobrada. No início do mês de maio, já está pronto o novo plano para a deflagração do movimento revolucionário.

Ao invés do levante simultâneo de unidades militares em diversos estados, como projetado anteriormente, a ação deveria iniciar-se pela tomada da cidade de São Paulo. As demais guarnições do Estado incorporar-se-iam num segundo momento. As do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais só revelariam sua adesão à revolução na medida em que fossem enviadas para combatê-la.

A primeira parte do plano, execução do levante em São Paulo, foi preparada em dois tempos:

1º - assédio e assalto do bloco de quartéis policiais da Luz (1º, 2º e 4º Batalhão de Infantaria, Corpo Escola, Cadeia Pública e Regimento de Cavalaria – este previamente comprometido com a revolução). A ação seria executada pelo 4º Batalhão de Caçadores e pelo Regimento de Cavalaria, com apoio de fogo do 2º Grupo de Artilharia Pesada, de Quitaúna. Isso conseguido, ocupar-se-iam as estações ferroviárias, o telégrafo e a telefônica.

2º - o assalto dos demais bastiões da defesa governista, localizados em vários pontos da cidade – 3º e 5º Batalhão de Infantaria da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Secretaria de Justiça, Palácio do Estado e Quartel-General da Guarda Cívica. A ação seria realizada por patrulhas do 4º Regimento de Infantaria, transportadas de Quitaúna para São Paulo em automóveis.

A segunda parte do plano, defesa e ampliação das posições conquistadas, seria iniciada antes do amanhecer do dia 5 de julho. O capitão Joaquim Távora avançaria com 500 homens, pela Estrada de Ferro Central do Brasil, em direção a Barra do Piraí (RJ), incorporando durante a marcha os efetivos de  unidades do Exército já comprometidas com o movimento. Outro destacamento seguiria para Santos, através da São Paulo Railway, a fim de ocupar o Porto. Se a cidade não pudesse ser ocupada, os revolucionários abririam trincheiras na Serra do Mar, para barrar a progressão de tropas vindas do litoral contra São Paulo.

Esperava-se que uma vez ocupada a capital paulista, bloqueado um ataque governista mediante desembarque de tropas em Santos, e aberto o Vale do Paraíba à ofensiva das tropas revolucionárias sobre o Rio, seria quase certa a adesão das unidades do Exército enviadas de outras guarnições para combatê-las.

Concluído o plano, Joaquim Távora dirigiu-se ao Rio, para apresentá-lo ao general Isidoro. Este aceitou-o sem ressalvas. A data da deflagração do  movimento foi fixada inicialmente para o dia 28 de maio, depois 26 de junho e, finalmente, zero hora de 5 de julho de 1924.

 

5. São Paulo em 1924

Embora a escolha de São Paulo como centro do levante tenha se dado principalmente pela avaliação da correlação de forças no terreno militar, o ambiente de descontentamento que predominava entre os 700 mil habitantes da cidade não escapava à percepção dos revolucionários.

Três questões políticas galvanizavam as atenções, no primeiro semestre daquele ano. A truculência empregada por Washington Luís,  para fazer de Carlos de Campos seu sucessor no governo do estado. As greves operárias provocadas pela carestia, ocorrida em função da alta artificial dos preços do café. Os objetivos da Missão Inglesa que, antecipando as do FMI, promovia, com o beneplácito do governo, minuciosa inspeção na economia nacional.

A ação de Washington Luís forçando o PRP (Partido Republicano Paulista) a recuar da indicação da candidatura do senador Álvaro de Carvalho, primeiro para o governo e depois para o senado, provocara, em 22 de janeiro, o desligamento de Altino Arantes, governador no período 1916-1920,  e o surgimento do grupo dissidente denominado Os Coligados, do qual se aproxima Júlio de Mesquita, com seu jornal O Estado de São Paulo.

No final do mês de janeiro tem início também uma greve na maior indústria têxtil da cidade, o Cotonifício Rodolfo Crespi. Pressionados pela carestia, os trabalhadores reivindicam 40% de reajuste salarial. A paralisação se alastra por todo o setor, envolvendo 12.000 operários durante várias semanas. Violências, perseguições, prisões, deportações e um aumento de 10% são o resultado do movimento. Porém a discussão sobre as causas e soluções para o problema da carestia não cessam com o seu encerramento.

No dia 29 de junho, ultrapassando as piores expectativas dos que desde a sua chegada, em dezembro de 1923, denunciavam a humilhante ingerência, a Missão Inglesa publica um relatório no qual recomenda a privatização do Banco do Brasil, do Lloyd e da Estrada de Ferro Central do Brasil, ou seja, de todas as estatais dos anos 20. Para renegociar a dívida e conceder novos empréstimos, a missão cobrava também do governo um rígido arrocho fiscal e medidas que favorecessem o ingresso de capitais externos, considerados indispensáveis ao desenvolvimento do país – antigo filme que viria a ser reprisado inúmeras vezes, sempre apresentado como a última palavra em matéria de modernidade.

 

6. O Início do Levante

Um atraso de doze horas na chegada do general Isidoro impediu que a segunda parte do levante transcorresse conforme o plano estabelecido. Porém, a primeira - a mais importante –, embora só iniciada por volta das cinco horas da manhã, estava praticamente concluída, sem incidentes, em pouco mais de quarenta minutos, ao clarear do dia 5.

Isidoro havia se comprometido a chegar, em São Paulo, na manhã do dia 4. O local marcado para o encontro era a estação da Luz. No entanto, na última hora, decidiu saltar na estação do Brás, provocando os desencontros e atrasos que prejudicariam a execução das operações.

Só às três e meia da manhã, Joaquim Távora consegue chegar ao 4º Batalhão de Caçadores, de Santana, encontrando a tropa já rebelada pelo trabalho de persuasão realizado pelo capitão Newton Estilac e os tenentes Asdrúbal Gwyer e Castro Afilhado. Uma hora depois, armada e municiada, a força marchou reunida até a Ponte Pequena,  onde se separaram as diversas patrulhas de assalto aos quartéis da Luz. Às cinco horas da manhã completou-se o cerco dessas casernas. O Regimento de Cavalaria, comandado pelo major Miguel Costa, foi o primeiro a soar o toque de formatura, sinal de adesão à causa revolucionária.  Enquanto isso, Índio do Brasil e Castro Afilhado penetram no 4º Batalhão de Infantaria;  Estilac Leal e Thales Marcondes no 2º; Eduardo Gomes e João Batista Nitrini no 1º; Asdrúbal Gwyer e Arlindo de Oliveira no Corpo Escola. Sem que tenha sido preciso o disparo de um só tiro, a bandeira da revolução tremulava triunfante sobre o principal reduto governista.

No entanto, seis núcleos da defesa governamental – 3º e 5º Batalhão de Infantaria da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Guarda Cívica, Secretaria da Justiça e Palácio do Estado – não puderam ser atacados em virtude do desencontro entre as forças do tenente Juarez Távora e o tenente Custódio de Oliveira, o que retardou a tomada do 4º Regimento de Infantaria, de Quitaúna, base de onde partiriam tais ataques.

Assim, ao amanhecer os revolucionários ainda não haviam logrado apoderar-se da cidade. Mas seus efetivos contavam 1.500 homens, 100 automáticas, 2 milhões e 500 mil cartuchos e as baterias do Grupo de Artilharia Pesada de Quitaúna, ocupando posição no Campo de Marte. O efetivo do governo não chegava a 1.000 homens, sem artilharia e sem cavalaria.

 

7. Reação do General Abílio de Noronha

Alertado da eclosão do movimento pelo Capitão Grimualdo Fávila, o general Abílio de Noronha, comandante da 2ª Região Militar,  que passara a noite no Hotel Esplanada, participando dos festejos do Independence Day, promovidos pelo consulado norte-americano, dirigiu-se, na manhã do dia 5, ainda insone, ao recém-sublevado quartel do 4º Batalhão de Caçadores. Como os oficiais revolucionários haviam se deslocado para o Centro, não foi difícil ao general retomar o quartel. Com os elementos que lá encontrou organizou uma força e marchou rumo aos quartéis da Luz.

Chegando ao 4º Batalhão de Infantaria, cuja maior parte da tropa também já se encontrava em missões fora do quartel, tomou-o e reintegrou no comando os oficiais que haviam sido presos pelos revolucionários. Dali seguiu para o Corpo Escola, onde tentou fazer o mesmo, mas foi barrado pelo capitão Joaquim Távora que lhe deu voz de prisão. Houve troca de palavras ásperas que só cessou com a chegada providencial do general Isidoro e do coronel João Francisco, a cuja ordem de prisão acabaram se submetendo o general Abílio e os oficiais de seu séquito. Aí terminou a ação contra-revolucionária do comandante da 2ª Região Militar, mas não os seus efeitos.

Desconhecendo o que ocorrera no 4º Batalhão de Infantaria, para lá se dirige Joaquim Távora, seguido dos tenentes Juarez Távora, Castro Afilhado e do capitão Índio do Brasil. São presos e sumariamente condenados à morte por fuzilamento, pelo secretário de Justiça Bento Bueno. Mas acabam libertados na tarde do dia 10, após o abandono da cidade pelas tropas do governo. Na mesma ocasião foi libertada a aviadora Anésia Pinheiro Machado, também detida na unidade por haver lançado flores e panfletos sobre a cidade no início da rebelião.

Com a prisão de Joaquim Távora, a estratégica descida do Vale do Paraíba, em direção a Barra do Piraí, que deveria iniciar-se na manhã do dia 5, sob seu comando, foi sendo adiada e acabou suspensa. O prolongamento da luta pelo controle da capital provocaria outras alterações nos planos revolucionários.

 

8. A Disputa da Capital

Na noite de 5 de julho começa a definir-se a linha de contato das tropas adversárias. No Centro, as estações da Luz e Sorocabana, sob comando do tenente João Cabanas, da Polícia Militar; o hotel Terminus sob o comando de Estilac Leal; a estação do Brás sob o comando do tenente Arlindo de Oliveira; a da Cantareira comandada pelo tenente Eduardo Gomes; e, no flanco esquerdo, o 4º Batalhão de Caçadores, retomado pelo tenente Gwyer de Azevedo.

Os dias 6 e 7 são marcados por intensos combates. Forças federais penetram na cidade visando um contra-ataque. Três dessas unidades aderem à revolução: o 2º Grupo de Artilharia da Montanha, vindo de Jundiaí, o 6º Regimento de Infantaria, de Caçapava, sob o comando do major Cabral Velho, e uma companhia do 5º Regimento de Infantaria, de Lorena, sob o comando do tenente Azhaury de Sá Brito e Sousa. O efetivo que passa para o lado dos revoltosos, com essas adesões, é superior aos reforços governistas chegados de Santos e Pirassununga – 400 marinheiros, com uma seção de canhões Armstrong, 75; o 3º Grupo de Artilharia de Costa, com uma bateria Krupp, 75; e 200 homens do 2º Regimento de Cavalaria Divisionária. Essas forças realizam um bombardeio de pouca eficácia sobre o quartel-general das forças revolucionárias, instalado na região da Luz, e tentam um avanço ao longo do Tamanduateí. A ação é repelida. Seus executores são forçados a entrincheirar-se na usina da Light, da Rua Paula Sousa.

Os ataques dos revoltosos ao Palácio dos Campos Elísios, onde o governador Carlos de Campos mantinha a sede do governo, foram todos rechaçados, nos dias 5 e 6 de julho. Porém, durante a madrugada do dia 7, os rebeldes penetram silenciosamente nos palacetes abandonados pelos moradores, nas imediações do Palácio. A partir de posições bem protegidas, nos forros dos telhados, desatam intensa fuzilaria sobre as forças governistas. Pegas de surpresa, as tropas abandonam as barricadas em atropelo e são obrigadas a permanecer acuadas, dentro do prédio. O governador decide então transferir-se, sigilosamente, para a Secretaria da Justiça, no Largo do Tesouro. Mas o edifício, devido a sua posição elevada, se constituía num excelente alvo para a artilharia revolucionária que, mesmo sem conhecimento de tão ilustre presença, atacou-o com rara eficácia. Carlos de Campos, quase atingido pelas granadas, decide, então, retirar-se com seus auxiliares imediatos para a localidade de Mogi das Cruzes e dali para Guaiaúna – nas proximidades da estação de Vila Matilde, situada, na época, nos limites da capital. A fuga foi efetuada no dia 8 de julho. Os revolucionários, porém, só tomaram conhecimento do fato na manhã seguinte.

 

9. Miguel Costa Confronta Isidoro

A luta ininterrupta travada dia e noite dentro da capital paulista, desde o amanhecer de 5 de julho, se constitui num verdadeiro teste para os nervos dos dois adversários. Desconhecendo a fuga do governador, o general Isidoro, na noite do dia 8, comunica sua decisão de abandonar a cidade e concentrar as tropas revolucionárias em Jundiaí. Para lá deveriam marchar também o 4º Regimento de Artilharia da Montanha, de Itu, e o 5º Batalhão de Caçadores, guarnições que haviam aderido à revolução e estavam aquarteladas em Rio Claro.

O major Miguel Costa se insurge contra a decisão.  Não vê sentido numa retirada quando as possibilidades de vitória ainda eram promissoras. Não aceita que se deixe para trás, na prisão, sob ameaça de execução sumária, o principal organizador do movimento, o capitão Joaquim Távora. Considera que a retirada naquele momento seria um golpe fatal no moral das tropas e provocaria a desagregação das forças revolucionárias. Declara que as unidades da Polícia Militar, sob seu comando, não acatariam a ordem e prosseguiriam em suas posições, dentro da cidade. Isidoro retira-se do quartel-general abalado, mas mantendo a decisão de promover a retirada na manhã do dia seguinte.

Miguel Costa foi o primeiro a tomar conhecimento da fuga de Carlos de Campos e do consequente colapso das forças governistas, ocorrido na madrugada do dia 9. Prontamente pediu ao tenente Simas Enéas, assistente de Isidoro, que fosse procurá-lo para que se reconciliassem. A divergência estava superada. São Paulo fora conquistada.

 

10. Acordo com a Associação Comercial e a Prefeitura

Os dias 9 e 10 de julho transcorrem em relativa tranquilidade. As forças revolucionárias contêm rapidamente a onda de saques iniciada com a fuga das autoridades governamentais e realizam entendimentos com a Associação Comercial e a Prefeitura de São Paulo.

A Associação Comercial, presidida por José Carlos de Macedo Soares,  representava os grandes industriais e comerciantes paulistas.  No dia 7 de julho, havia publicado manifesto de apoio a Carlos de Campos, que conclui com as seguintes palavras:

“A Associação Comercial de São Paulo aconselha às classes conservadoras que acompanhem com a máxima simpatia e apoio a heróica resistência que vem desenvolvendo o governo do Estado. E se mantenham confiantes na ação resoluta do presidente Carlos de Campos”.

Mas, considerando a retirada do governador para Guaiaúna e a impossibilidade das empresas das ditas classes conservadoras seguirem o mesmo caminho, acharam estas prudente reconhecer a situação de fato, criada pela conquista revolucionária da cidade. As principais decisões que emergiram dessas conversações foram a manutenção do prefeito Firmino Pinto no cargo e a assinatura do Ato 2424, criando a Guarda Municipal – uma força desarmada, organizada pela Prefeitura, destacada para apoiar o policiamento da cidade.

Em boletim datado do dia 10, o doutor Firmino Pinto, prefeito da capital,  apresenta o seu ponto de vista sobre a questão:

“O prefeito de São Paulo, diante da situação de fato, de ter sido tomada a cidade pelas forças revolucionárias, foi pessoalmente à presença de seu chefe responsabilizá-lo pelo serviço de policiamento e abastecimento desta capital. Tendo o chefe dos revolucionários declarado que não embaraçaria a atuação da autoridade municipal, o prefeito continuará no seu posto a tomar as providências que se tornem necessárias”.

No mesmo dia, os jornais publicam com destaque o Comunicado dos Chefes do Movimento Revolucionário, sinal de que a imprensa também mudara o tom em relação ao levante.

 

11. Chuva de Bombas sobre São Paulo

Mas a paz terminaria no dia seguinte, 11 de julho, quando os 700.000 habitantes de São Paulo assistem estarrecidos o início do capítulo mais negro da história da cidade. Os bairros do Brás, Belenzinho,  Mooca e o Centro começavam a sofrer tremendo bombardeio. Seguidamente os obuses e granadas de vários calibres varavam casas pobres, matando, ferindo, destruindo, apavorando. Os moradores dessas zonas atingidas, acometidos de pânico, juntavam o que podiam e se retiravam sem rumo certo, invadindo outros bairros em busca de abrigo e socorro.

Francisca Spinelli, moradora de um dos bairros atingidos, em carta à amiga Leopoldina Ferreira, de Piracicaba, revela a angústia e a perplexidade da população frente à violência do choque:

“Nunca vi a morte tão de perto como na madrugada de hoje... As balas passam sobre as nossas cabeças assobiando terrivelmente. Espera-se a todo momento ser-se vítima de uma dessas monstruosas granadas. Já morreram diversas pessoas aqui na rua e aqui ficam, sem o auxílio de ninguém... Temos nos escondido no porão”...

A ação causa centenas de baixas civis e nenhuma baixa militar. Há uma multidão de feridos e desabrigados. A Associação Comercial lança um dramático apelo:

“O canhoneio de ontem, tendo alarmado a  população desta capital, determinou o êxodo dos moradores... fazendo com que dezenas de milhares de pessoas abandonassem seus lares... A Associação Comercial de São Paulo pede aos habitantes desta generosa cidade que recebam em suas casas, na medida de suas forças, as mulheres velhos e crianças desamparadas”.

O arcebispo Metropolitano D. Duarte Leopoldo da Silva mandou franquear igrejas, cedeu conventos, escolas, casas e paróquias, para a abertura de hospitais. No próprio dia 12, é criada uma comissão para pedir a intervenção do governo federal a fim de cessar o bombardeio. A comissão é composta pelo arcebispo D. Duarte; o prefeito Firmino Pinto; o presidente daLiga Nacionalista, Vergueiro Steidel; o diretor do jornal O Estado de São Paulo, Júlio Mesquita; e José Carlos de Macedo Soares. Prontamente  telegrafam ao Ilustre Presidente da República, dr. Artur Bernardes:

“Pedimos V. Excia. intervenção caridosa para fazer cessar bombardeio contra inerme cidade de São Paulo, uma vez que as forças revolucionárias se comprometem a não usar seus canhões em prejuízo da cidade. A comissão não tem intuito algum político,  mas exclusivamente a compaixão pela população paulista”.

A resposta vem assinada pelo ministro da Guerra, general Setembrino de Carvalho, diz:

“...não é possível assumir nenhum compromisso nesse sentido. Não podemos fazer a guerra tolhidos do dever de não nos servirmos da artilharia contra o inimigo... Os danos materiais podem ser facilmente reparados, mormente quando se trata de uma cidade servida pela fecunda atividade de um povo laborioso. Mas os prejuízos morais, esses não são suscetíveis de reparação”.

Carlos de Campos, em mensagem à Câmara de Deputados, é ainda mais explícito e enfático:

“Estou certo de que São Paulo prefere ver destruída sua formosa capital antes que destruída a legalidade no Brasil!”.

Na verdade, a oligarquia cafeeira, ao concluir que iria perder a sua capital para os revolucionários, decidiu sacrificá-la. Ao mesmo tempo em que comandou a retirada de Carlos de Campos, fez gestões junto ao governo federal para que o bombardeio fosse iniciado imediatamente. Washington Luís e o vice-governador, coronel Fernando Prestes, bancavam o jogo nos bastidores. Carlos de Campos, ex-líder do governo na Câmara Federal, havia sido o principal articulador da candidatura Bernardes. Washington Luís foi quem garantiu a sua posse na presidência da República, em 1922, quando o próprio Epitácio Pessoa pregava “a desistência do Bernardes” como “solução” para a crise. Este não se encontrava em condições de negar-lhes nada.

O bombardeio prossegue quase ininterruptamente, à razão de 130 disparos por hora. As descrições encontradas em relatos da época são  impressionantes:

“No Cemitério Municipal, onde centenas de pessoas vagam como zumbis a procura de desaparecidos, 64 corpos não identificados aguardam os coveiros, para serem enterrados em covas rasas. Cerca de 200 mortos anônimos se amontoam também numa baixada do Cemitério do Araxá a espera de sepultamento... Alguns corpos, há mais de 24 horas insepultos, são enterrados sem as formalidades legais até mesmo em terrenos descampados. Muitas famílias sepultam os seus mortos em quintais”.

Nova tentativa de suspender o bombardeio, feita no dia seguinte, 13 de julho, por uma delegação dos representantes diplomáticos sediados em São Paulo, também não obteve êxito. A noite é de grandes incêndios. Labaredas com mais de dez metros de altura devoram a fábrica de biscoitos Duchen, na Mooca. As chamas destroem também o Fórum Criminal, três casas na rua Tabatinguera, a companhia Duprat, os armazéns de Nazareth Teixeira e da Companhia de Comércio e Navegação. No dia 14 os bairros mais atingidos são Campos Elísios, Vila Buarque, Vila Mariana, Aclimação e Liberdade. No dia 15, o Teatro Olympia, na avenida Rangel Pestana, que servia de abrigo para dezenas de famílias que haviam perdido suas casas foi duramente atingido. As colunas, teto e paredes desabaram sobre seus ocupantes, em sua maioria, mulheres, velhos e crianças – 30 mortos e 80 feridos em estado grave.

O escritor e compositor Cornélio Pires, mestre da poesia caipira, registrou em sua Moda da Revolução o ambiente de desolação provocado pelo bombardeio da cidade:

Quando cheguei em São Paulo

O que cortou meu coração

Eu vi a bandeira de guerra

La na torre da estação

Encontrava gente morto

Por meio dos quarterão

Dava pena e dava dó

Ai, era só judiação

 

12. A Intensificação do Bombardeio

A situação era terrível, mas ainda iria piorar. Em 15 de julho, trazida do Rio de Janeiro, entra em ação uma arma mais mortífera: os canhões de 155 milímetros. Até então a cidade havia sido alvejada por baterias de 75 e 105 milímetros.

O capitão Correia Lima, comandante da 2ª Bateria, recebendo Carlos de Campos em visita às tropas estacionadas nas proximidades da estação de Vila Matilde, ordenou ao municiador que abrisse a culatra do canhão e lhe mostrasse uma granada. Isto feito, ponderou:

Excelência, essa granada tem um raio de ação de 600 metros. Isso quer dizer que duas pessoas, distantes 1200 metros,  uma da outra, poderiam ser mortas por estilhaços de uma única granada. Numa ocasião como esta, sobre São Paulo,  o melhor uso desta bateria é ficar silenciosa.

A resposta de Carlos de Campos:

Destrua-se São Paulo, mas fique impoluto o princípio da autoridade.

 Nos dias que se seguiram, aquelas baterias não cessaram de despejar sua carga arrasadora sobre a cidade.

O jornalista Paulo Duarte, testemunha ocular dos fatos, observa que“as granadas caíam a esmo”:

“O bombardeio durava dias e noites sem cessar; a Santa Casa se enchia de mulheres e crianças, os cemitérios pejavam-se de cadáveres e as fileiras revolucionárias não perdiam um só homem.

A conclusão que se impunha era estarrecedora, porém incontestável:

“... a artilharia governista atirava sobre a cidade em geral, sem ponto certo”.

O alvo era a própria cidade. A finíssima e liberalíssima oligarquia cafeeira paulista praticava, contra sua capital rebelada, o cruel,  desumano e covarde bombardeio terrificante - ação tipificada como crime de guerra, perante a Convenção de Haia de 1917.

 

13. A Morte de Joaquim Távora

Na noite do dia 14, um contingente governista, partindo do Ipiranga, consegue atravessar os bairros de Aclimação e Vila Mariana, em caminhões  e automóveis, e acaba por entrincheirar-se naquelas redondezas, retomando e ocupando o 5º Batalhão de Infantaria da Polícia Militar, na rua Vergueiro; os largos do Paraíso e da Guanabara; o convento Santo Agostinho; e, na Brigadeiro Luís Antônio, o convento Imaculada Conceição.

Desde o início do levante, as forças governistas não haviam conseguido qualquer penetração, digna de nota, nas defesas revolucionárias. Esta era a primeira vez que isso acontecia. Reverter a situação tornou-se, então, uma questão vital, a fim de que o precedente criado não minasse o moral das tropas.

O contra-ataque é comandado pelo capitão Joaquim Távora. Depois de intensos combates, na manhã do dia 16 os revoltosos já haviam retomado o controle da área. A bandeira revolucionária voltava a tremular no 5º Batalhão de Infantaria da Polícia Militar. Porém, saiu-lhes cara a vitória. Com indignação contida, um relato da época conta como o capitão Joaquim Távora tombou na luta pela retomada do 5º Batalhão.

“Vendo que a resistência era inútil, os legalistas acenaram o lenço branco. Aproximou-se do quartel um pelotão de rebeldes comandados por Joaquim Távora. Os defensores da lei, com flagrante deslealdade, atiraram sobre aquele oficial, atingindo-o em cheio no peito. O capitão Távora dois dias depois, falecia no Hospital Militar”.

 

14. Batalhões Patrióticos

Ao mesmo tempo em que Joaquim Távora recebia no próprio peito a demonstração do tipo de “princípios morais” pelos quais a oligarquia revelava tamanho zelo, o comando revolucionário abre inscrições para o voluntariado e convoca a população.

O resultado entusiasma os tenentes. O jornal A Plebe, porta voz do movimento anarquista, divulga um manifesto de apoio aos revoltosos – Moção dos Militantes Operários ao Comitê das Forças Revolucionárias. Ainda que considerando imprecisos e limitados os objetivos do levante, os anarquistas não tinham como deixar de acompanhar a onda de adesão das classes populares, especialmente da classe operária, que só fazia aumentar a cada granada disparada contra a cidade.

Alguns comícios já haviam se realizado, a exemplo do ocorrido no Largo do Arouche, cuja convocatória é representativa do clima que tomava conta de São Paulo:

“... o comício será de protesto contra o bombardeio da cidade – atentado de inaudita ousadia, perpetrado por aqueles que se dizem defensores da ordem e da legalidade. Falará sobre o acontecimento o dr. Lindolfo Barbosa Lima, fazendo-se ouvir outros oradores”.

Com a abertura para o recrutamento de voluntários, o apoio da população expresso em manifestações e outros gestos de simpatia, como as refeições servidas aos combatentes nas trincheiras,  poderia expressar-se de forma superior.

Os voluntários foram organizados em Batalhões Patrióticos. A afluência de imigrantes veteranos da 1ª Guerra Mundial, muitos sem saber o português, foi grande, o que levou os revolucionários a criarem três batalhões estrangeiros, organizados de acordo com as afinidades de idioma.

O batalhão húngaro, instalado na rua Tiradentes, número 15, inicialmente se responsabilizou pelo policiamento da cidade. Dos 122 combatentes alistados, 13 eram oficiais com experiência em campos de batalha. No número 88 da avenida Liberdade, foi instalado o Batalhão Patriótico da Colônia Alemã, sob o comando de João Joaquim Tuchen. O batalhão italiano, composto basicamente de anarquistas, tem em Lamberti Sorrentino, redator do jornal Il Piccolo, um de seus principais líderes.

O processo de adesão popular cresceu ininterruptamente. Até a véspera da retirada, encontravam-se panfletos com este teor:

“Ao proletariado em geral! Convida-se o proletariado para uma reunião neste Sábado, 26 do corrente, a rua Wenceslau Brás, 19, às 14h, onde ficará definitivamente assentado o seu concurso moral e material em favor da Revolução que ora sacode este Estado ao caminho de um amanhã de mais liberdade, justiça e bem-estar para as classes oprimidas. (O Comitê Operário)”

O caipira retratado por Cornélio Pires, na Moda da Revolução, que inicialmente se mostra consternado, melancólico, com a destruição observada em sua chegada à cidade, já na quinta estrofe aparece mergulhado na luta, de armas e bagagens:

Nós tinha um 42

Que atirava noite e dia

Cada tiro que ele dava

Era mineiro que caía

E tinha um metralhador

Que encangaiava com pontaria

Os mineiro com os baiano

Ai, c`os paulista não podia

 

15. Condições de Paz

Desde o início dos bombardeios, os representantes dos industriais e comerciantes apelavam ao general Abílio de Noronha,  preso pelos revoltosos no primeiro dia do levante,  para que aceitasse a incumbência de negociar com o governo federal uma solução para o conflito. Noronha, que até a rebelião era o comandante da 2ª Região e tinha alto prestígio na cúpula militar, pede que os revolucionários formalizem em carta as suas condições. 

Em 17 de julho, o general Isidoro encaminha a carta estabelecendo a condição básica:

“Entrega imediata do governo da União a um Governo Provisório composto de nomes nacionais de reconhecida probidade e da confiança dos revolucionários. Exemplo: Dr. Wenceslau Brás”.

A carta afirma ainda que: o “Governo Provisório convocará uma Constituinte, quando julgar oportuno”. E reafirma o compromisso com o “voto secreto” e a “educação pública”, bandeiras que sintetizavam as mudanças mais urgentes pelas quais os revolucionários se batiam.

Alegando não poder dirigir-se ao presidente da República para solicitar a sua renúncia, o general Abílio de Noronha recua da atribuição,  mas a carta se transforma numa espécie de plataforma revolucionária. É impressa, distribuída aos jornais e à população, obtendo ampla repercussão.

 

16. Aviação Ataca São Paulo

A 22 de julho já era insuportável a atmosfera em São Paulo. O canhoneio sistemático espalhava pânico e desespero entre a população civil. Cerca de 15 mil pessoas deixavam a cidade diariamente. Mais de 150 mil já a haviam abandonado. Esse número chegaria a 300 mil, quase a metade da população de São Paulo, na época.

Naquele dia fora atingida mais uma das grandes fábricas paulistas, o Cotonifício Rodolfo Crespi, estabelecimento têxtil dos mais bem montados da América do Sul. O povo olhava angustiado os rolos de fumaça que enegreciam o céu. Chamas colossais podiam ser vistas a quilômetros de distância.

Os revolucionários respondem com ousadia, estreando seu trem blindado. Produzido nas oficinas da São Paulo Railway, o invento se constituía de uma locomotiva entre dois vagões de carga revestidos com paredes duplas de madeira recheadas de areia, para amortecer as balas e proteger os soldados em seu interior. O vagão da frente transportava um reforçado limpa-trilhos e uma metralhadora pesada, no teto, dentro de uma torre de ferro. A 60 quilômetros por hora, o trem partiu da Luz em direção a estação de Vila Matilde, onde surpreendeu as forças governistas com um ataque relâmpago e retirou-se ileso.

Às três horas da tarde, aviões se aproximam de São Paulo, voando a baixa altitude. A cidade sofre o seu primeiro ataque aéreo. Cinco bombas de 60 quilos explodem nas ruas, destruindo casas e edifícios.

 

17. Revoltosos Derrotam Tanques

Em 23 de julho, pela primeira vez tanques irrompem no Belenzinho, produzindo um princípio de pânico nas forças revolucionárias.

Equipados com canhões,  automáticas e blindagem de 22 milímetros, os Renault F-17 eram imunes ao fogo de fuzis e metralhadoras. Nem as tropas do Exército, nem as da Polícia Militar tinham experiência em combatê-los.

O comando revolucionário age com presteza e mobiliza os três batalhões estrangeiros contra os tanques. Para veteranos da 1ª Guerra Mundial, tanques não eram novidade. Depois de cavarem fossos de dois metros de profundidade, para barrar a progressão dos veículos, verificam que eles haviam avançado sem apoio de infantaria, erro que já custara muitas perdas nos campos europeus. Então os batalhões estrangeiros envolveram os blindados,  passando a atacá-los pela retaguarda. Alguns alemães chegaram a trepar nos tanques, com o intuito de abrir as escotilhas e matar seus ocupantes. Quase capturaram dois.

A ofensiva, que prometia mudar o curso da batalha em questão de horas, por pouco não se transformou num pesadelo para as forças governistas. Os tanques se retiraram rapidamente do teatro de operações e não mais voltaram a ser utilizados.

 

18. Mais Destruição

Na madrugada do mesmo dia, densas colunas de fumaça brotavam do depósito de inflamáveis Mercansul e da fábrica de bebidas Antártica.

Em função dos incêndios sucessivos, o comando revolucionário põe em liberdade todos os bombeiros dispostos a prestar serviços profissionais. O Quartel-General do Corpo de Bombeiros tinha sido um dos bastiões da defesa governista nos primeiros dias do levante. Muitos dos carros de bombeiros haviam sido levados pelas tropas legalistas para Guaiúna, em sua retirada. A fim de reavê-los, a Associação Comercial envia carta ao general Eduardo Sócrates, comandante das forças que efetuavam a operação de cerco e aniquilamento da cidade. O material nada tinha de bélico. Mesmo assim a espera pela resposta é longa e inútil. A destruição prossegue de forma sistemática.

O número de indústrias e estabelecimentos comerciais atingidos, entre os quais as Oficinas Duprat, Motores Morelli, S/A Scarpa, Matarazzo, Magasins Generaux, Reickman & Cia, Ernesto de Castro, Moinhos Gamba, ultrapassa a uma centena. Até o fim do conflito, a quantidade de prédios destruídos chegaria à casa de dois mil.

No dia 26, panfletos ameaçadores são lançados por aviões, trazem a assinatura do ministro da Guerra, general Setembrino de Carvalho:

“Faço à nobre população de São Paulo apelo para que abandone a cidade... É esta uma dura necessidade que urge aceitar como imperiosa... Espero que todos atendam a esse apelo para se pouparem aos efeitos das operações que dentro de poucos dias serão executadas”.

           

19. Com o Dr. Carlos de Campos em Guaiaúna

No dia seguinte, o jornalista Paulo Duarte parte para Guaiaúna levando cartas do presidente da Associação Comercial, José Carlos de Macedo Soares, para Carlos de Campos e o general Eduardo Sócrates:

“... o aniquilamento do poder industrial do Estado de São Paulo prossegue todos os dias, pelo efeito destruidor das granadas e pelas chamas devoradoras de pavorosos incêndios... O ânimo da fiel e leal população de São Paulo está abatido,  mas compara com azedume o tratamento generoso que tem recebido dos revolucionários com a desumanidade inútil de ininterrupto bombardeio”.

A carta solicita uma trégua de 48 horas, “para que o general Abílio de Noronha possa parlamentar ainda hoje com V. Excia”, uma vez que os revolucionários haviam se disposto negociar a paz em troca de uma anistia ampla aos participantes dos levantes de 1924 e 1922.

O próprio portador lavrou para a história, com indisfarçável ironia, o insólito encontro que manteve com o Dr. Carlos de Campos:

“Com toda a pachorra esperei que o sr. Governador do Estado engraxasse as botas, e, em sua companhia, dei entrada depois no carro da Central, ambulante quartel-general das forças legais, sede provisória do governo de São Paulo...

Confortavelmente instalado numa das macias poltronas do majestoso carro... disse qual era a minha missão e entreguei a carta que trouxera... Ao  meio da carta, já o amável governador não pode mais esconder sua irritação, dizendo:

- Isso não são palavras de amigo!

E ao fim da leitura:

- Absolutamente! Aos revoltosos nada! Nós iremos até o fim... Eles aguardem as consequências...

- Mas Dr Carlos de Campos (aventurei), se V.Excia conhecesse a atual situação da cidade...

- Não será pior que a minha aqui.

Tive a ousadia de lamber com um olhar tímido o ambiente confortável do carro salão...

- Vocês, (retrucou S. Excia, ainda agitado) parece que estão fazendo causa comum com os revoltosos... Em vista dos termos desta carta vou mandar aumentar os bombardeios. A granada será a resposta!”

 

20. A Retirada Estratégica

Às 22h do dia 28, surpreendendo as tropas governistas com uma manobra ousada e precisa, as forças revolucionárias empreendem uma retirada estratégica pelo eixo ferroviário São Paulo-Campinas-Bauru. São treze composições ferroviárias, com quatorze a dezesseis vagões, cada uma delas, conduzindo homens e material bélico. Toda a tropa, seis baterias de artilharia com seus acessórios e munição, duzentos cavalos, metralhadoras pesadas, equipamento de infantaria e cavalaria, viaturas, tudo foi embarcado com incrível rapidez, sem dar tempo ao inimigo de compreender o que estava acontecendo.

Os trens correram com um sincronismo tal que não houve o menor embaraço nas linhas dentro de um espaço de tempo de vinte e quatro horas.

No derradeiro manifesto dirigido à população da cidade, os revolucionários agradecem o apoio recebido:

“Assim, pois, no desejo de poupar São Paulo de uma destruição desoladora, grosseira e infame... vamos mudar a nossa frente de trabalho e a sede governamental.

Avante paulista, que a hora da liberdade se aproxima! Deus vos pague o conforto e o ânimo que nos transmitistes”.

Durante o dia 29 concentraram-se na cidade de Bauru. Somavam 3.500 homens, entre soldados do Exército, Polícia Militar e voluntários civis, que passaram a se organizar em três brigadas, um regimento de cavalaria e um regimento misto de artilharia. Posteriormente se dirigirão ao Paraná, onde mantêm a luta por vários meses, até que, em maio do ano seguinte, com as fileiras engrossadas por tropas gaúchas, levantadas em outubro pelo capitão Luís Carlos Prestes e os tenentes Siqueira Campos e João Alberto, iniciam a longa jornada de 25 mil quilômetros, através de dez estados, ao longo de dois anos, sem serem derrotados em nenhuma das batalhas travadas.

 

21. Epílogo

Nos dias em que São Paulo esteve sob direção das forças revolucionárias, as baixas militares provocadas pelos bombardeios foram irrelevantes. Porém as vítimas civis atingiram proporções trágicas. Dos 700 mil habitantes da capital, 300 mil a abandonaram, refugiando-se no interior. O relatório preliminar, apresentado pelo prefeito Firmino Pinto, registra 500 mortos, 5.000 feridos, 1.182 prédios destruídos, entre os quais 103 estabelecimentos comerciais e industriais. Porém considera parciais os dados levantados e estima que numa apuração completa os números obtidos seriam muito superiores. No caso das edificações atingidas, chega a admitir “mais de 1.800”:

“A Inspetoria Geral de Fiscalização procedeu a um penoso trabalho de exame... dos prédios danificados... e apurou devidamente verificados 1.182. Por inspeção posterior pode-se asseverar que esse número vai a mais de 1.800”.

No entanto, com a consolidação do controle da cidade pelas forças contra-revolucionárias, a apuração das baixas produzidas pelo bombardeio foi bloqueada e abandonada, confirmando o preceito de que o interesse dos criminosos é sempre o de ocultar a extensão de seus delitos. 

Dois anos e meio mais tarde, a oligarquia cafeeira paulista guindaria  Washington Luís à presidência da República. O coronel Fernando Prestes também não seria esquecido. Seu filho, Júlio Prestes, o Dr. Julinho, assumiria o governo do estado de São Paulo. Carlos de Campos deixaria a cena mais cedo, falecendo antes da conclusão do mandato, em abril de 1927.

Quando a Revolução de 30 os varreu do mapa, Julio Prestes, mercê da habitual fraude que marcava o processo eleitoral, estava a pique de suceder Washington Luís na presidência da República.

 

Sérgio Rubens de Araújo Torres

Texto extraído da Hora do Povo

 

Revolução de 1924 - Nas barrancas do Rio Paraná

“Nas lindes acidentes do Paraná alguns milhares de compatriotas vão selando com o seu sangue o protesto contra a tirania!”

 

1.      Introdução

2.      Sertões Paulistas

3.      A Coluna da Morte

4.      O Papel da Imprensa

5.      Reorganização em Bauru

6.      Plano de Campanha

7.      Porto Tibiriçá

8.      A Conquista de Guaíra

9.      Preparando a Frente Sul

10.  Chimangos e Maragatos

11.  Isidoro desautoriza João Francisco

12.  Insurreição no Rio Grande do Sul

13.  A Revolta do Encouraçado São Paulo

14.  Nas Trincheiras de Catanduvas

15.  A Guerra de Posição

16.  Reveses em Alegrete e Itaqui

17.  O Leão de Caverá

18.  Protetor de Chimangos

19.  A Guerra de Movimento

20.  Marcha para o Norte

21.  Deserção do Tenente Gay

22.  Ataque a Formigas

23.  Conversações de Paz

24.  Operação Clevelândia

25.  Queda de Catanduvas

26.  O Encontro das Divisões

27.  O Comandante Paraguaio

28.  Epílogo

 

1. Introdução

À  1h15 do dia 5 de julho de 1922, os canhões do Forte Copacabana, no Rio de Janeiro, anunciavam a primeira de uma sucessão de rebeliões que culminariam com a liquidação do domínio exercido pela oligarquia cafeeira sobre a vida nacional.

A submissão aos  interesses do imperialismo inglês, e a conseqüente renúncia à industrialização do país, empurrara a oligarquia  a um beco sem saída.  Sua insistência na valorização artificial do café, às custas do empobrecimento dos demais setores da sociedade, provocara uma crise sem precedentes.

Os tenentes sonhavam com um Brasil renovado pelo voto secreto,  educação pública, moralidade administrativa, erradicação da miséria. Para isso era necessário libertá-lo dos grilhões da monocultura cafeeira.

A segunda onda revolucionária teria início em 1924, também na mesma data, 5 de julho. As guarnições do Exército da capital paulista e parte do contingente da Polícia Militar se insurgem. Com o apoio da população civil,  assumem o controle da cidade, depois de quatro dias de combates. À frente do levante estão o capitão Joaquim Távora, veterano de 1922; o major Miguel Costa, do Regimento de Cavalaria da Polícia Militar; o coronel João Francisco Pereira de Sousa; o general reformado Isidoro Dias Lopes; e diversos tenentes e ex-alunos da Escola Militar de Realengo, que tiveram seu batismo de fogo na Revolução de 1922.

A 13 de julho levanta-se a guarnição federal de Sergipe, sob o comando do tenente Maynard Gomes. Dez dias depois, subleva-se o 27º Batalhão de Caçadores, sediado em Manaus. Os tenentes Alfredo Augusto Ribeiro Júnior e Magalhães Barata destituem os representantes do clã Rego Monteiro, e instituem um governo revolucionário. Em 26 de agosto é a vez da guarnição de Belém derrubar o governo estadual.

As rebeliões no Nordeste e Norte são dominadas pelo governo central, ainda no mês de agosto. Porém a revolução iniciada em São Paulo se estenderá por um período de quase três anos, marcando profundamente a vida política do país, preparando o advento da terceira e decisiva ofensiva revolucionária, em 1930.

 

2. Sertões Paulistas

Durante os primeiros dias em que a luta era travada na cidade de São Paulo, os insurretos assumiram o controle de Rio Claro, Jundiaí e Campinas, através do 5º Batalhão de Caçadores e do 2º Grupo de Artilharia de Montanha, unidades respectivamente sediadas na primeira e segunda localidades.

A partir do dia 18 de julho, três destacamentos revolucionários foram lançados sobre os principais eixos ferroviários do estado. Sob o comando do capitão Otávio Guimarães, o primeiro destacamento seguiria pelas ferrovias Paulista e Mogiana, na direção Oeste, com o objetivo de neutralizar as penetrações governamentais vindas de Mato Grosso. O segundo, comandado pelo tenente João Cabanas, tomaria o rumo Norte, através da Mogiana, visando conter infiltrações procedentes do sul de Minas. O outro, chefiado pelo capitão Paulo Francisco Bastos, marcharia na direção Sul, pela Sorocabana, para impedir ou retardar a progressão de forças provindas do Paraná.

Essas providências foram decisivas para evitar o cerco da capital e manter aberto o caminho para a retirada das tropas revolucionárias – opção que, naquele momento, começava a afigurar-se como único meio de salvar São Paulo da destruição provocada pelo criminoso bombardeio levado a cabo pelas forças governistas. Apesar de não produzir baixas significativas entre as forças revolucionárias, o bombardeio, iniciado em 12 de julho, espalhava o pânico e a morte entre a população civil. Em dezesseis dias, mais de 1.800 edificações foram arrasadas, entre as quais uma centena de fábricas e estabelecimentos comerciais.

O destacamento de Otávio Guimarães – tenente do Exército, comissionado na função de capitão – dirigiu-se para a estratégica cidade de Bauru, ponto de convergência de três estradas de ferro, onde havia uma forte oposição disposta a prestar integral apoio aos revolucionários.

O inquérito realizado pela Polícia Militar de São Paulo atesta que a missão foi realizada com êxito. Diz o documento:

“Fazendo de Bauru o centro de suas proezas... mandara ocupar, desde logo, Agudos, Dois Córregos, Jaú e Bocaina, o que foi realizado com felizes incursões pelo civil dr. José Giraldes Filho, comissionado tenente... Determinou o delegado militar de Jaú a ocupação de Mineiros do Tietê e Bica de Pedra... Tomaram a Estrada de Ferro Douradense, cujos empregados, levados pela propaganda revolucionária, aderiram francamente ao levante, passando a obedecer o delegado militar de Jaú”.

A ameaça de infiltração de tropas paranaenses não se efetivou. Poucos dias depois o destacamento do capitão Paulo Francisco Bastos retornava a São Paulo.

 

3. A Coluna da Morte

O tenente João Cabanas, do Regimento de Cavalaria da Polícia Militar – denominada, na época, Força Pública Paulista – tinha um problema difícil de ser resolvido através dos meios convencionais de combate.

À frente de um destacamento composto de 95 homens, sua missão era bloquear o general Martins Pereira, que vindo de Minas ocupara Mogi-Mirim, Jaguari e Itapira com 800 soldados que compunham a vanguarda de sua tropa. Dispunha ainda a força invasora de 1.000 homens estacionados em Ribeirão Preto, e 1.200 que haviam atingido as cidades mineiras de Jacutinga e Pouso Alegre. O general tencionava atacar Campinas, fechando o cerco aos revolucionários na capital.

Dispondo de poucos elementos para desestabilizar e fazer recuar uma tropa cujos efetivos totais chegavam a 3.000 homens, o tenente Cabanas deslocava-se com estudado espalhafato, tendo chegado a se valer de um trem especialmente preparado para parecer armado dos mais mortíferos engenhos militares da época. Na verdade, o veículo era uma réplica cenográfica do trem blindado utilizado semanas antes pelas forças revolucionária no ataque à estação de Vila Matilde, na cidade de São Paulo. No vagão da frente, um imponente e temível canhão de 155 mm. Só observando-o bem de perto se perceberia o logro. Segundo afiança o tenente, o artefato fora fabricado “com a melhor peroba produzida no solo paulista, enegrecida com algumas pinceladas de piche”.

Assim, antes mesmo de ser atingido pelos disparos dos comandados de Cabanas em seus desconcertantes ataques, o general Martins Pereira era fustigado pela nascente lenda da Coluna da Morte.

Antecedido pela fama que começara a granjear, o batalhão do tenente Cabanas, em sua marcha para Mogi-Mirim, surpreendeu os ocupantes da cidade com arrasador telegrama endereçado a uma cidade vizinha:

“Seguimos madrugada, mil homens, seis peças de artilharia, vinte metralhadoras.  Providencie, urgente, alojamentos para tropa”.

Incontinenti a Coluna da Morte atacou e dominou as posições mais fracas do inimigo, em Jaguari e Itapira. Foi o suficiente  para que o general governista ordenasse a desocupação de Mogi-Mirim, aliviando a pressão sobre Campinas.

Perdendo o respeito pelo adversário, Cabanas decidiu persegui-lo, marchando sobre Ribeirão Preto, onde conseguiu dispersar a força inimiga valendo-se dos mesmos métodos.

Contida a ameaça de infiltração das tropas de Minas, o tenente solicitou autorização para ampliar o raio de ação da Coluna da Morte. Pretendia acossar e dispersar as quatro brigadas formadas pelos próceres do PRP – Partido Republicano Paulista. Concentradas em Itapetininga e Sorocaba, essas forças irregulares, compostas de jagunços e peões capturados a laço, levavam o nome de seus ilustres organizadores: Washington Luís, Fernando Prestes, Júlio Prestes e Ataliba Leonel – respectivamente, o ex-governador, o vice-governador, o futuro governador e um senador estadual.

A autorização não foi concedida. Já a essa altura contando com  200 combatentes, a Coluna da Morte voltou-se então para Espírito Santo do Pinhal, onde o general Martins Pereira procurava reorganizar suas forças. Derrotado mais uma vez, o general abandonou no campo de batalha 1.200 fuzis, 14 caixas de munição de artilharia, duas metralhadoras pesadas e farta munição de infantaria.

 

4. O Papel da Imprensa

Sob o impacto das investidas de Otávio Guimarães e João Cabanas, as autoridades revolucionárias comandaram também a ocupação de São Carlos, Araraquara, Jaboticabal, Limeira, Araras, Pirassununga e Descalvado.

Batida no campo de batalha por modestos tenentes, a oligarquia cafeeira empenhou-se em estigmatizá-los através da imprensa.

Otávio Guimarães era apresentado como um celerado que saqueava, em proveito próprio, os cofres das estações ferroviárias, prefeituras e câmaras municipais.

De Miguel Costa diziam que desviava produtos requisitados para suprimento das forças revolucionárias. Sob o título “Busca e apreensão na casa da irmã de um dos chefes dos bandoleiros”, o Correio Paulistano forjava, em 31 de julho, a prova do crime:

“O sr. dr. Edgard Botelho, delegado da 1ª circunscrição da capital... realizou ontem, às 13h, uma busca na casa da rua Tabatingüera, 84-A, residência da irmã  do major Miguel Costa, chefe dos elementos sublevados da Força Pública Estadual, o `remodelador da moral republicana brasileira`, onde apreendeu as seguintes mercadorias: 1 caixão de latas de sardinhas, 2 caixões de cebolas, 1 saco de milho, 2 caixões de sabão, 3 sacos de sal... 1 pneumático, 5 réstias de alho, 16 galinhas, 1 peru, 2 leitões, 15 latas de atum, 2 latas de pescada, 4 latas de leite condensado, 1 lata de vaselina... Um verdadeiro armazém!”.

Já o tenente Cabanas foi contemplado com pérolas do seguinte quilate:

“Na torva galeria dos malfeitores que a revolta engendrou destaca-se, num fundo rubro-negro, ora a rir como jogral num circo, ora a gesticular como epilético em paroxismo trágico, a figura do tenente Cabanas, da Força Pública de São Paulo...

Cabanas surgiu no ambiente lôbrego da revolta como seu mais perfeito símbolo. No cérebro onde se fluidificam vapores de insânia e de delírio perpassam-lhes como relâmpagos visões trágicas e grotescas... Para a execução dos planos sinistros e instantâneos que idealiza todos os meios lhe servem”.

A síntese desses juízos foi expressa pelo Correio Paulistano, através do seguinte epíteto:

 “O famigerado João Cabanas, a alma danada da revolução”.

Empenhavam-se os escribas em compor o perfil de um ser maligno, sanguinário ao extremo, que se comprazia em torturar prisioneiros cortando-lhes a  língua e arrancando-lhes os olhos a ponta de espada. Em breve estariam circulando histórias de que Cabanas protegia-se das balas cobrindo-se com uma invulnerável capa negra que lhe fora presenteada pelo próprio Satanás.

Alheio às maledicências, o tenente ultimava os preparativos para a realização de um plano de invadir o triângulo mineiro e marchar sobre Belo Horizonte, quando foi informado que os revolucionários começavam a retirar-se de São Paulo, devendo a Coluna da Morte tomar o rumo de Campinas, para alcançar o grosso da força revolucionária em deslocamento para Bauru.

 

5. Reorganização em Bauru

Às 22h do dia 28, as forças revolucionárias iniciaram a retirada estratégica pelo eixo ferroviário São Paulo-Campinas-Bauru. São treze composições ferroviárias, com quatorze a dezesseis vagões, cada uma delas, conduzindo homens e material bélico. Toda a tropa, seis baterias de artilharia com seus acessórios e munição, duzentos cavalos, metralhadoras pesadas, equipamento de infantaria e cavalaria, viaturas, tudo foi embarcado com incrível rapidez, sem dar chance ao inimigo de perceber o que estava acontecendo. Os trens correram com um sincronismo tal que não houve embaraço nas linhas, ao longo de vinte e quatro horas.

Os dias seguintes são dedicados à reorganização da tropa e à definição do plano de campanha para as novas condições de luta.

Os 3.000 homens, originários das unidades do Exército, Polícia Militar e Batalhões Patrióticos – formados por voluntários civis – são organizados em três brigadas, um regimento de cavalaria, um regimento misto de artilharia, escolta do QG e Estado-Maior.

O contingente militar do estado era de pouco mais de 11.000 homens, dos quais 7.538 da Polícia Militar e 3.700 do Exército. Cerca de um terço integravam agora as fileiras revolucionárias. Nos quartéis, pelo menos outro terço simpatizava abertamente com a revolução.

A 1ª Brigada, sob o comando do general Bernardo de Araújo Padilha, é composta pelo 1º e 2º Batalhão de Caçadores, chefiados pelos majores Luís França de Albuquerque e Tolentino de Freiras Marques. Padilha era coronel e comandava o 5º Batalhão de Caçadores, de Rio Claro.

O comandante do 2º Grupo de Artilharia de Montanha, de Jundiaí, tenente-coronel Olinto Mesquita de Vasconcelos, assume, no posto de general, a chefia da 2ª Brigada, integrada pelo 3º e 4º Batalhão de Caçadores, comandados pelos majores Juarez Távora e Nelson de Mello.

A 3ª Brigada, tendo à frente o general Miguel Costa, é composta pelo 5º, 6º e 7º Batalhão de Caçadores, respectivamente comandados pelos majores Coriolano de Almeida, João Cabanas e Arlindo de Oliveira.

O Regimento de Cavalaria tem no comando o general João Francisco. O Regimento Misto de Artilharia segue as ordens do tenente-coronel Newton Estilac Leal. O chefe do Estado-Maior do general Isidoro é o coronel Mendes Teixeira.

Todos os oficiais investidos nas novas funções de comando foram promovidos a postos superiores aos que ocupavam quando o levante teve início.

 

6. Plano de Campanha

O plano de campanha previa o deslocamento da Divisão São Paulo para Porto Tibiriçá, última estação da Sorocabana, situada na margem esquerda do rio Paraná, divisa com o estado de Mato Grosso.

Dali, a opção preferencial do general Isidoro, comandante da Divisão, era a de subir o rio e penetrar no Mato Grosso, através de Três Lagoas. A adesão da guarnição de Campo Grande, previamente comprometida com a revolução, propiciaria a ocupação de toda a região que corresponde hoje ao estado do Mato Grosso do Sul.

O general João Francisco tinha uma opinião diferente. Acreditava que de Porto Tibiriçá as forças revolucionárias não deveriam subir o rio, mas descê-lo, invadindo os sertões paranaenses e ocupando a faixa que vai de Guaíra a Foz do Iguaçu, zona produtora de sólida situação estratégica. A razão principal da escolha se devia ao fato dessa posição favorecer uma futura junção com as forças revolucionárias do Rio Grande do Sul, em cuja insurreição o general depositava suas maiores certezas e esperanças. Em seu modo de ver, a abertura da nova frente renovaria e ampliaria as forças revolucionárias, criando as condições para que elas retomassem a ofensiva. Sem que isso ocorresse, o movimento, condenado à defensiva, acabaria por definhar.

Prevaleceu, no entanto, nesse primeiro momento, a opção por Mato Grosso. Foram então mobilizadas as unidades que deveriam dar cobertura ao deslocamento da coluna.

 

7. Porto Tibiriçá

Otávio Guimarães dirigiu-se para Araçatuba, com 150 homens. Sua missão era fixar no terreno as forças do general governista Nepomuceno Costa, até que fosse completada a entrada de toda a tropa em Mato Grosso.

Para a realização da marcha de Bauru até Porto Tibiriçá, era preciso dar uma volta, recuando para Botucatu, até Rubião Júnior, e depois avançando pelo ramal da Sorocabana que passa por Avaré, Ourinhos, Presidente Prudente e Presidente Epitácio.

O Batalhão Cabanas toma então posição em São Manoel e nos arraiais de Toledo, Redenção e Igualdade – na direção de Dois Córregos. O Batalhão Távora segue para Botucatu. A missão de ambos é impedir que as forças do general Azevedo Costa embaracem a progressão da Divisão.

No dia 31 de julho inicia-se o deslocamento, na seguinte ordem: Brigada Padilha, Brigada Mesquita, Cavalaria do general João Francisco, QG, Brigada Miguel Costa. Às 22h do dia seguinte estava terminado o escoamento de todas as unidades em Rubião Júnior. Às 23h, embarcam na esteira do grosso o Batalhão Távora, seguido pelo Batalhão Cabanas, designado para fazer a retaguarda.

Através da longa travessia os revolucionários são estimulados pelo entusiasmo da população. Avaré, Cerqueira César, Ourinhos,  Salto Grande vibram com a sua passagem.

Em 5 de agosto chegam a Assis. São recebidos com festas e missa campal – naquele dia se comemorava um mês de luta revolucionária. Foi realizado um comício e editado o primeiro número do jornal O Libertador, que teria mais quatro edições produzidas naquela cidade.

A 6 de agosto, a vanguarda da Divisão, composta pela Companhia Gwyer, do 1º Batalhão de Caçadores, reforçada por uma seção de metralhadoras, atinge Porto Tibiriçá. Num ataque relâmpago aprisiona os vapores Guaíra, Paraná, Rio Pardo, Brilhante e Conde de Frontim.

Na retaguarda, comandando um batalhão composto de 380 praças, bem armados e municiados, quatro metralhadoras pesadas e uma peça de artilharia, o major Cabanas dinamita pontes e provoca obstruções na via férrea, para retardar a marcha das forças que vêm no encalço da coluna. Em seu relato, ele considera que esse trabalho foi facilitado pela “anarquia nas tropas governistas”. Uma das razões que aponta é a seguinte:

“Na minha estadia em Mandurí, recebia informações detalhadas do que se passava em Avaré. Nesta cidade pararam os comboios que conduziam a vanguarda da perseguição,,, cujos oficiais faziam preceder os respectivos trens de alguns vagões repletos de prostitutas, requisitadas a 100 mil-réis, diários e por cabeça, recrutadas nos bordéis de Sorocaba e Botucatu”.

Vencendo duas escaramuças, em Salto Grande e Indiana, e dois combates de maior vulto, em Santo Anastácio e Cayuã, o Batalhão Cabanas atinge Porto Tibiriçá, no dia 13 de setembro.

Nos 38 dias decorridos entre a chegada da vanguarda da Divisão e de sua retaguarda ao rio Paraná, a marcha dos acontecimentos ditou a alteração dos planos revolucionários. Fracassara a invasão do Mato Grosso. Todas as esperanças voltavam-se para a conquista de Guaíra.

 

8. A Conquista de Guaíra

O Batalhão Távora fora batido, em 18 de agosto, na margem mato-grossense do rio Paraná, quando tentava ocupar Porto Independência, passo preliminar para a conquista da cidade de Três Lagoas.

Conta o seu comandante que o batalhão fora “reforçado pela Companhia Gwyer e Companhia Azhaury, ambas do 1º Batalhão de Caçadores,  e uma seção de artilharia comandada pelo capitão Felinto Muller, somando um efetivo global de 570 homens”.

A tropa era numerosa e experiente. No entanto, sofreu um grave revés, conforme relata o major Távora:

“Deixava o Batalhão, no campo de combate, entre mortos, feridos e prisioneiros, um terço de seu efetivo, aí incluídas as duas seções de metralhadoras pesadas”.

Uma semana depois da trágica investida, começa a descida do rio Paraná. O plano é escoar a Divisão em escalões sucessivos, em direção à Guaíra.

A vanguarda, sob o comando do general João Francisco, é  composta pelo 3º e 4º Batalhão de Caçadores, da Brigada Mesquita de Vasconcelos, reforçada por uma seção de artilharia montada e um piquete de cavalaria. O 3º Batalhão de Caçadores, debilitado pelas baixas sofridas em Mato Grosso, fora reorganizado, absorvendo a Companhia Azhaury que antes integrava o 1º Batalhão.

Embarcada em três navios e um pontão, a expedição aprisiona, no dia 26 de agosto, a lancha Iguatemi, da Companhia Mate Laranjeira, que conduzia uma patrulha governista.

Os prisioneiros informam que o capitão Dilermando Cândido de Assis, responsável pela defesa de Guaíra, mantinha 200 homens em Porto São José, na margem paranaense do rio, três léguas abaixo da foz do Paranapanema - divisa do estado de São Paulo. Na outra margem, o grileiro Quincas Nogueira dominava Porto São João. Nogueira era um homicida disputado pela Justiça do Rio Grande do Sul, de Rosário – Argentina – e Santa Rosa – Uruguai. Fugira da cadeia de Corrientes, em outubro de 1913, instalando-se nos ervais mato-grossenses. O governo, em seu esforço de guerra,  concedera-lhe a patente de tenente-coronel da reserva do Exército.

A força revolucionária dividiu-se para enfrentar a nova ameaça – um destacamento continuaria pela via fluvial, outros seguiriam por terra, para surpreender os elementos governistas entrincheirados nas duas margens do rio Paraná.

A iniciativa valeu a conquista de Porto São João, em 30 de agosto, e Porto São José, no dia seguinte.

Em 14 de setembro, após um confronto com as forças do capitão Dilermando, na ilha do Pacu, os revolucionários conquistam Guaíra. Haviam descido 200 km do rio Paraná, em 20 dias. Percorreriam outros tantos, nas duas semanas seguintes.

 

9. Preparando a Frente Sul

A cidade era uma sólida cabeça-de-ponte para a concentração do grosso revolucionário no sudoeste paranaense. O escalão de vanguarda tratou logo de alargá-la, ocupando Porto Mendes, situado 60 km abaixo de Guaíra – nesse mesmo trecho, paralela ao rio corria a estrada de ferro da empresa Mate Laranjeira. No dia 15 de setembro, a Companhia Azhaury ocupou também Porto São Francisco, 20 km ao sul de Porto Mendes.

Acometido de pneumonia dupla, o capitão Azhaury de Sá Brito morreria poucos dias depois. Azhaury era tenente, no 5º Regimento de Infantaria, de Lorena. Enviado para combater a rebelião na capital paulista, levantara sua companhia integrando-a às hostes revolucionárias.

A 26 de setembro, depois de haver ocupado Porto Britânia, o 3º Batalhão de Caçadores chega a Foz do Iguaçu, fazendo o percurso através de picadas que margeiam o rio Paraná. Nessa cidade se realiza, em 5 de outubro, o encontro longamente esperado pelo general João Francisco. Emissários estabeleciam contato com a Divisão, a fim de coordenar os esforços para promoverem um levante de grande envergadura no estado do Rio Grande do Sul.

Para a abertura da nova frente, o general João Francisco acreditava poder contar com diversas unidades do Exército situadas nas fronteiras sul e oeste daquele estado. Além disso, esperava também a adesão dos generais maragatos e seus lendários cavaleiros. Embora agindo cada qual por conta própria, os chamados caudilhos manifestavam especial consideração pelas opiniões do dr. Assis Brasil, chefe da Aliança Libertadora.

João Francisco nascera e se formara nas lides da fronteira gaúcha. A adaga da qual não se afastava, sempre visível entre o cinturão e a túnica, não deixava dúvida quanto às suas origens. Sobrevivente da Guerra Federalista de 1893, cavalgara com os chefes  maragatos.

A delegação que acabara de chegar para a reunião confirmava as suas expectativas. Ao lado do tenente Siqueira Campos, herói do Forte Copacabana,  sentavam-se os majores maragatos Alfredo Canabarro e Anacleto Firpo, representando os generais Honório Lemes, Zeca Neto e o dr. Assis Brasil. A situação, segundo eles, estava madura. A rebelião poderia ser iniciada em menos de um mês. Esperavam apenas a manifestação da Divisão Paulista sobre a oportunidade de deflagrá-la.

         

10. Chimangos e Maragatos

No final do século 19, uma profunda divisão entre os gaúchos dera origem a sangrentas disputas.

Os chimangos detinham o controle do governo do estado, desde a proclamação da República, com Júlio de Castilhos e, em seguida, Borges de Medeiros.

Nas eleições presidenciais de 1922, o chefe do Partido Republicano Rio-Grandense marchara contra a candidatura oficial, sustentada pela oligarquia paulista. Visando enfraquecê-lo, os maragatos apoiaram o candidato oficial, Artur Bernardes, e lançaram Assis Brasil ao governo do Rio Grande do Sul.

Contestando o resultado das eleições ao governo do estado, iniciaram os maragatos, em janeiro de 1923, uma rebelião armada para derrubar Borges de Medeiros.

O governo federal escusou-se de intervir na contenda, permitindo que ela se aprofundasse. Em seguida, passou a costurar um pacto segundo o qual os partidários de Assis Brasil aceitariam que Borges concluísse o mandato, em troca de não mais poder submeter sua candidatura à reeleição.

O Pacto de Pedras Altas, celebrado em dezembro de 1923, no entanto, não  pacificou o Rio Grande.

Acreditando que a oligarquia paulista havia estimulado sua rebelião com o intuito de utilizá-la em benefício próprio, como instrumento para submeter Borges de Medeiros, os maragatos estavam dispostos a voltar suas armas contra ela.

 

11. Isidoro desautoriza João Francisco

O general João Francisco não perde tempo. No dia 8 de outubro, os emissários estão de volta. Em sua companhia viaja o major Távora. O general Mesquita, que havia transferido o comando da 2ª Brigada ao tenente-coronel Estilac Leal, assumindo a função de superintendente-geral do Serviço de Transporte, também foi mobilizado para uma operação delicada: a de transportar os recursos financeiros para a aquisição de armas e munições necessárias aos revolucionários gaúchos.

Dias depois as providências tomadas por João Francisco dão origem a um sério desentendimento entre ele e o general Isidoro.

O grosso da Divisão ficara sitiado por vários dias nas ilhas situadas pouco acima de Porto São José, perdendo o contato com a vanguarda. Os combates travados produziram muitas baixas – a principal delas foi a perda completa do 7º Batalhão de Caçadores.

Além de defrontar-se com o inimigo tradicional, os revolucionários eram castigados por um novo adversário ao qual não estavam ainda adaptados, e que assim foi descrito pelo tenente Cabanas:

Dormir alguém em uma ilha, embora respirando a fragrância de flores desconhecidas ou embalado pelo rumorejar das águas é quase um sacrifício; nuvens de mosquitos em formação aérea de combate nos atacam aos grupos... Depois os carrapatos de diversos físicos... Além, a infantaria das formigas, num desfilar incessante, ferrão em riste... as urtigas, a unha de gato, a tiririca, o agulheiro de taquarussu, o vespeiro que aprece ao quebrar-se um galho, as aranhas monstruosas, a taturana, a manada furiosa de queixadas e caetetus, o bicho do pé que aos milhares irrompem dos excrementos do tapir.

Em razão desses percalços, só em 20 de outubro o general Isidoro consegue chegar a Guaíra e Porto Mendes, onde encontrou-se com João Francisco, pela primeira vez, desde que este partira de Porto Tibiriçá.

A discussão foi áspera. João Francisco argumenta que a situação do Rio Grande do Sul exigira uma decisão rápida. Isidoro contesta, considera especialmente absurdo o fato dele haver utilizado três quartas partes dos recursos financeiros da revolução numa “aventura”.

Isidoro envia depois uma carta a João Francisco informando que vai desautorizar suas iniciativas  junto aos revolucionários gaúchos. Ele diz:

Vou agir e deliberar de acordo com o meu modo de ver e vou também entender-me diretamente com os amigos do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande, a fim de combinarmos uma ação conjunta.

 Antes que João Francisco possa ler a missiva, estoura o levante no Rio Grande do Sul.

 

12. Insurreição no Rio Grande do Sul

No dia 29 de outubro, o primeiro manifesto das forças revolucionárias anunciava a eclosão da revolução no estado:

“Hoje... levantam-se todas as tropas do Exército das guarnições de Santo Ângelo, São Luís, São Borja, Itaqui, Uruguaiana, Alegrete, Santana, Dom Pedrito; Jaguarão e Bagé; hoje, irmanados pela mesma causa e pelos mesmos ideais, levantam-se as forças revolucionárias gaúchas de Palmeira, de Nova Wuertemburg, Ijuí, Santo Ângelo, e de toda a fronteira até Pelotas. E hoje entram em nosso estado os chefes revolucionários Honório Lemes e Zeca Neto, tudo de acordo com o grande plano organizado”.

O plano previa o levante simultâneo das unidades do Exército e dos chefes maragatos. O objetivo era formar duas colunas, a do Sul e a do Oeste, que marchariam, respectivamente, sobre Santa Maria e Cruz Alta. Realizadas essas operações, as forças revolucionárias se deslocariam para o Norte, visando a capital da República, batendo de passagem as tropas que pressionavam a Divisão São Paulo, no Iguaçu. A movimentação dentro do Rio Grande do Sul deveria realizar-se com a máxima rapidez, para reduzir ao mínimo o contato com as forças de Borges de Medeiros, a fim de concentrar o esforço revolucionário contra o governo federal e seu sustentáculo, a oligarquia cafeeira.

Nem tudo correu conforme o esperado.

Na zona oeste, o capitão Luís Carlos Prestes e o tenente Mário Portela Fagundes sublevaram o Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo. O tenente João Pedro Gay levantou o 3º Regimento de Cavalaria Independente, de São Luís Gonzaga das Missões. Os tenentes Siqueira Campos e Aníbal Benévolo assumiram o controle de São Borja, levantando o 2º Regimento de Cavalaria Independente. Porém a guarnição de Itaqui, situada entre São Borja e Uruguaiana, não aderiu à revolução. A ofensiva sobre Itaqui, para consolidar o controle sobre o Oeste, desarticulou parte importante das forças revolucionárias de São Borja, custando a vida do tenente Benévolo.

Na fronteira sul, apenas Uruguaiana cerrou fileiras com a revolução. O major Távora e o tenente Edgard Dutra foram os responsáveis pelo levante do 5º Regimento de Cavalaria Independente, que guarnecia a cidade.

Violentos combates, na faixa da fronteira uruguaia, arrastaram-se durante dois meses. As forças revolucionárias, compostas pelos gaúchos dos generais Honório Lemes e Zeca Neto, pelo 5º Regimento de Cavalaria, de Uruguaiana, e uma seção do Regimento de Artilharia a Cavalo, de Alegrete, acabaram se chocando pesadamente contra os corpos provisórios que constituíam a nata da força militar chimanga. Reunindo cerca de 10.000 homens, agrupados em cinco brigadas, essas unidades tinham entre seus principais organizadores Flores da Cunha, Osvaldo Aranha, Paim Filho, Claudino Nunes Pereira e Getúlio Vargas.

As forças que marcharam unidas, a partir do Rio Grande do Sul, seis anos mais tarde, para promover a Revolução de 30, se defrontavam, naquele momento, no campo de batalha.

 

13. A Revolta do Encouraçado São Paulo

A insurreição no Rio Grande do Sul foi um chamamento para que outras ações revolucionárias fossem desencadeadas.

No dia 5 de novembro, o encouraçado São Paulo se revolta seguido pelo contratorpedeiro Goiás. Atacados pelos canhões das fortalezas de Santa Cruz e Copacabana, o Goiás se rende. O São Paulo contra-ataca e silencia as duas fortalezas. Os 600 marinheiros revolucionários comandados pelo tenente Hercolino Cascardo, apoiado por seis tenentes, haviam tido grande dificuldade para dominar o navio, em razão da resistência oferecida por parte da tripulação que navega, agora, devidamente trancafiada: praças e sargentos no paiol, os oficiais em seus respectivos camarotes.

O São Paulo e o Minas Gerais, duas das mais potentes belonaves da época, eram o orgulho da Marinha. Para o povo, constituíam-se num importante símbolo das nossas potencialidades. Por seis dias, o encouraçado rebelado navegou seguido da esquadra capitaneada pelo Minas Gerais. Ambos evitaram o duelo que poderia pô-los a pique. A 11 de novembro o São Paulo fundeou em Montevidéu. Metade dos marinheiros sublevados por Cascardo decidem juntar-se às forças revolucionárias em luta no Rio Grande do Sul.

Poucos dias depois, a 15 de novembro, na residência do major Martins Gouveia de Feijó, rua Cabuçu, número 58, a polícia apreendeu grande número de bombas de 10 e 15 kg fabricadas com dinamite. Foram detidos também o Capitão Costa Leite e o farmacêutico João Ferreira Chaves. A rede revolucionária, na capital da República, era extensa, possuindo bases sólidas no 15º Regimento de Cavalaria, 1º Batalhão de Engenharia, Regimento de Artilharia de Montanha, Companhia de Carros de Assalto e Escola Militar de Realengo.

A 4 de janeiro dezenas de prisões desarticularam, em São Paulo, a execução do plano revolucionário de atacar o edifício da Imigração, transformado em cárcere político. Lá se encontravam presos o general Ximeno de Villeroy e o major Arlindo de Oliveira - genro do general João Francisco e comandante do 7º Batalhão de Caçadores da Brigada Miguel Costa. O plano previa o ataque simultâneo ao Comando Geral da Polícia Militar, Polícia Central, QG do Corpo de Bombeiros, por ex-oficiais de Itu, membros da Polícia Militar e civis.

Até o final de 1926, as tentativas de promover novos levantes em apoio à ação do exército revolucionário não cessaram, lotando as cadeias com milhares de presos políticos, dos quais 1.200 foram enviados para a Colônia Agrícola da Clevelândia, situada no Oiapoque, divisa com a Guiana Francesa. Só 179 saíram de lá com vida.

 

14. Nas Trincheiras de Catanduvas

Desde a ocupação de Guaíra, o general João Francisco promovia o alargamento da cabeça-de-ponte conquistada não só em direção à Foz de Iguaçu. Logo nos primeiros dias um pelotão de cavalaria era lançado, rumo leste, pela estrada carroçável que liga Porto São Francisco à Catanduva.

O arraial encravado no alto da serra, única via de penetração direta do planalto para o cânion do médio Paraná, estava situado sobre a estratégica rodovia que liga Guarapuava a Foz do Iguaçu.

Progredindo por essa rodovia, em direção à Guarapuava, o pelotão ocupou a localidade de Lopeí, a 90 km da barranca do rio Paraná.

Posteriormente,  o 4º Batalhão de Caçadores, comandado pelo major Nelson de Mello, estendeu o domínio sobre a rodovia, atacando as forças governistas em Formigas. Estas recuaram, indo entrincheirar-se na Serra do Medeiros, defronte à localidade de Belarmino.

Em Belarmino foi fixada a 2ª Brigada, com dois batalhões de Infantaria, reforçados pelo regimento de cavalaria e uma seção de artilharia. O posto de comando foi instalado em Isolina, na estrada Iguaçu-Cascavel. Também na mesma carroçável, situada atrás das linhas revolucionárias, duas seções de artilharia, enfermaria, intendência e oficina mecânica reforçavam as unidades sob comando de Estilac Leal.  A localidade era conhecida pelo nome de Depósito Central.

Em Foz do Iguaçu instalou-se o QG da Divisão. Em Guaíra, a Brigada Padilha. Entre Porto Mendes, Porto São Francisco e Santa Helena, a Brigada Miguel Costa.

Uma picada que vinha em curva de Guarapuava até Porto Mendes, cruzando o rio Piquiri e deixando Catanduvas à sua esquerda, expunha o flanco revolucionário. A 23 de outubro, o Batalhão Cabanas foi incumbido de guarnecê-lo. O ponto em que a picada cruzava o Piquiri, situado 32 léguas a leste da margem do Paraná, ficava dentro dos ervais do latifundiário argentino Júlio Allica. Em regime de trabalho escravo, cerca de 1.000 mensus - paraguaios contratados como mensalistas - eram ali violentamente explorados. Cabanas libertou-os depois de aplicar uma “surra de espada” no capataz Santa Cruz, cunhado de Allica. O capataz e os jagunços foram expulsos do local. Cerca de 200 trabalhadores incorporaram-se ao 6º Batalhão de Caçadores – esses homens, afeitos ao serviço de abertura de picadas, seriam de grande importância nas futuras ações do batalhão. A partir desse episódio a Companhia Mate Laranjeira, concorrente de Allica na região, redobrou a deferência que passara a dispensar aos revolucionários desde que estes haviam ocupado localidades e portos vitais para a companhia.

 A região sob domínio das forças revolucionárias no sudoeste paranaense possuía área equivalente ao território da Suiça. A produção interna e a fronteira com dois países, Paraguai e Argentina, tornava viável as possibilidades de abastecimento.

A única mudança significativa nas posições ocupadas pela Divisão São Paulo foi o recuo da linha avançada, de Belarmino para Catanduvas, no início do mês de janeiro, após combates iniciados em 15 de novembro.

 

15. A Guerra de Posição

O general Cândido Rondon, comandante da guarnição militar dos estados de Santa Catarina e Paraná, assumira o comando geral dos 12.000 homens das forças governistas mobilizadas para combater os revoltosos.

Nos seus 43 anos de vida militar, o general havia obtido respeito e admiração de seus patrícios pelo trabalho pioneiro que desenvolvera como pacificador de indígenas e desbravador de uma imensa área do território nacional, enquanto cumpria a extenuante missão de estender 2.270 km de linhas telegráficas através da região amazônica.

Em 1922, Rondon havia apoiado Nilo Peçanha contra Bernardes, nas eleições para presidente da República, tendo inclusive chegado a participar das articulações que visavam impedir a posse do segundo por meios insurrecionais, conforme relata o general Flores da Cunha:

“Posso depor quanto à participação ativa dos republicanos rio-grandenses para articular um movimento violento contra o governo da República e o candidato por ele sustentado. Dentre outros recebi em Uruguaiana visitas alternadas dos generais Cândido Rondon, Ximeno de Villeroy e o tenente Adalberto Moreira, recomendados pelo dr. Borges de Medeiros... Dos visitantes era o general Rondon o mais reservado, sem ocultar entretanto a mais formal repulsa aos processos de compressão praticados com flagrante desvirtuamento do regime republicano”.

Assim como Borges de Medeiros, Rondon recuara dessa posição. Os insurretos, porém, mantinham a expectativa de que o general não se deixaria usar pela oligarquia cafeeira a ponto de assumir o comando da ação repressiva. Foi com pesar que eles viram essa esperança se desvanecer.

O plano de Rondon para enfrentá-los era aumentar gradativamente a pressão sobre as linhas revolucionárias, acumulando o maior número possível de homens e armamento, a fim de forçá-los a retroceder, passo a passo, em direção às fronteiras da Argentina e Paraguai, onde pretendia encurralá-los e obrigá-los a escolher entre a rendição e o exílio. Punha em prática a doutrina da guerra de posição, adotada amplamente na 1ª Guerra Mundial. Desde 1920, a Missão Militar Francesa, comandada  pelo  general Maurice Gamelin, repassava aos militares brasileiros sua comprovada experiência nessa matéria.

 

16. Reveses em Alegrete e Itaqui

Em 29 de outubro, quando estourava a rebelião nos quartéis do Rio Grande, o tenente João Alberto, servindo no 3º Regimento de Artilharia a Cavalo, de Alegrete, estranhou que o comandante de sua unidade, ao invés de dominar a força policial e assumir imediatamente o controle da cidade, tenha ordenado o seu deslocamento, com uma seção do regimento, até a ponte sobre o rio Capivari. O objetivo era guarnecer a posição até a chegada do trem que viria transportando forças do 5º Regimento de Cavalaria Independente de Uruguaiana, mobilizadas pelo major Távora para promover a ocupação de Alegrete.

Chegando às imediações cidade, na madrugada do dia 31, com 300 homens, o tenente João Alberto e o major Távora são surpreendidos pela violenta reação de uma tropa composta de 1.000 homens, comandados pelo dr. Osvaldo Aranha. Vindos de Santa Maria e Quaraí, esses integrantes dos corpos provisórios, haviam ocupado Alegrete.

Depois de renhido combate, a força atacante recua, dividida em duas metades que perdem contato entre si. Separadamente, João Alberto e Távora conseguem chegar a Uruguaiana depois de diversas peripécias – o primeiro na noite do dia 31, o segundo dois dias depois.

Mal acabara de repousar, uma ligação telefônica informa ao major Távora que Siqueira Campos e Aníbal Benévolo iam atacar Itaqui, na madrugada do dia 4, e pediam o seu apoio. Acompanhado dos tenentes Edgard Dutra e João Alberto, ele parte para a região, com um destacamento de 200 homens. Porém as duas forças não conseguiram estabelecer contato. Diz ele:

“Como na manhã seguinte nenhum indício do ataque anunciado fosse observado, resolvi retornar a Uruguaiana, onde a situação não me parecia muito segura”.

O desencontro foi fatal. Vindo de São Borja, com um esquadrão de 140 homens do  2º Regimento de Cavalaria Independente, Siqueira Campos estava nas proximidades de Itaqui, aguardando reforços para desfechar o ataque. A defesa da cidade, que sediava o 4º Grupo de Artilharia a Cavalo, fora acrescida de 400 provisórios comandados por Osvaldo Aranha, que rapidamente se deslocara de Alegrete e pela segunda vez se interpunha no caminho de seus futuros aliados. De Santiago, marchava outro contingente de provisórios,  para imprensar a força atacante entre dois fogos. As unidades do Batalhão Ferroviário, mobilizadas de São Luís em seu socorro, pelo tenente Mário Portela Fagundes, não puderam evitar o desastre.

O tenente Benévolo, que cobria a retaguarda de Siqueira, com 70 combatentes, resiste por três horas ao ataque do adversário, até tombar sem vida. Siqueira e Portela retiram-se para o rio Ibicuí, 30 km ao sul. Na iminência de serem cercados, dispersam a tropa em pequenos grupos que retornam cavalgando para São Borja ou se internam nas matas do rio Uruguai, visando atravessá-lo, para chegar à Argentina. Ao atingir a margem, o grupo de 54 homens que seguia com Siqueira não encontra embarcação disponível. O tenente Mário Portela Fagundes, relata o desfecho do episódio:

“Siqueira estava porém disposto a salvar as suas tropas...E resolveu então praticar um gesto que o deixou altamente dignificado perante os companheiros que já se haviam habituado a admirar-lhe a valentia... tomou um pneumático, amarrou-o ao peito e atirou-se sozinho  às águas do Uruguai, frias e revoltas... Após duas horas e meia de natação entre piranhas e jacarés, Siqueira atingiu a margem e trouxe uma chalana que fez várias viagens, até que todos os homens alcançassem a margem portenha”

 

17. O Leão de Caverá

O general Honório Lemes chegara a Uruguaiana no dia 30 de setembro, pouco antes de o major Távora haver partido para a frustrada missão em Alegrete. Veio acompanhado de 550 cavaleiros gaúchos, agrupados em três corpos. Poucos dias depois, um emissário de Santana do Livramento transmitiu-lhe o pedido de oficiais do 7º Regimento de Cavalaria Independente, ali sediado, para que aproximasse sua tropa da cidade, pois a presença da 2ª Regimento da Brigada Militar, impedia que eles assumissem o controle da localidade, sem o reforço solicitado.

O 5º Regimento de Cavalaria Independente, comandado pelo tenente Ambirre Cavalcanti, comissionado tenente-coronel, foi integrado à tropa chefiada pelo general Honório Lemes. O major Távora tornou-se o chefe de seu Estado-Maior.

A coluna iniciou a sua marcha no dia 5, com 1.000 cavaleiros e 2.000 cavalos de remonta.

Na manhã do dia 8, quando se preparava para deixar o acampamento de Guaçu-Boi, 10 léguas a leste de Alegrete, os corpos provisórios, sob o comando de Flores da Cunha, atacaram. A marcha noturna realizada pelo general Honório por atalhos desconhecidos, para encobrir a posição da coluna, fora detectada pela força atacante. Colhidas de surpresa, as tropas não conseguem organizar-se para o confronto.

Conta o tenente João Alberto:

“O chão estava coberto de objetos diversos que caíam das carroças viradas. Instrumentos de música, bombos, sanfonas, cornetas, misturavam-se a lanças barracas e panelas... Honório galopava de um lado para o outro, no meio das balas, gritando: ‘estende linha, estende linha’ “.

A derrota foi dura. Restaram da antiga coluna menos de 200 homens. A maioria havia se dispersado para evitar o massacre, inclusive o tenente João Alberto, que retorna com um grupo para Uruguaiana e atravessa a fronteira argentina.

Mas Honório Lemes dá uma prova de porque merecera o título de Leão de Caverá. Penetrando naquela região, se reabastece e recompõe o seu exército, em menos de uma semana.

No dia 15, a coluna, com 800 homens, já está em marcha para a Estação de Remonta do Exército, em Saicã. Depois de dominar a guarnição, o general Honório armou uma emboscada contra o reforço de 300 provisórios que se deslocara de Rosário para o posto de remonta.

No dia 18, a coluna chega a Cacequi e destrói a estação telegráfica local. Honório Lemes manobrava para atrair em sua perseguição o 2º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar, estacionado em Santana do Livramento. O coronel Januário Correia aceita o desafio. As duas colunas manobram, cada qual procurando despistar e envolver a oponente.

No dia 22, o general Honório envia o major Távora a Santana do Livramento, com a missão de alertar o 7º Regimento de Cavalaria de que atacaria a cidade no dia 24. Mas, no último momento, decide emboscar o coronel Januário, no desfiladeiro da Conceição. Na manhã de 23 de novembro, travou-se ali um sangrento combate, do qual saíra ferido o coronel Januário Correia, perdendo Honório seus dois melhores comandantes de corpo – os coronéis Catinho Pinto e Teodoro de Meneses.

Desfalcado de seus efetivos, o general maragato, rumando para Caçapava e depois para Camaquã, reuniu suas forças às do general Zeca Neto. Após muitas correrias, marchas e contra-marchas destituídas de objetividade estratégica, sem munição e acossados pelos provisórios, emigram ambos, com os remanescentes de suas forças, para o Uruguai.

 

18. Protetor de Chimangos

Isolado em Santana do Livramento, o major Távora decide atravessar a rua que separa aquela cidade de Rivera, sua vizinha no Uruguai. Considerando esgotado seu papel na Frente Sul, o major prepara-se para retornar ao oeste paranaense. Antes, porém, faz uma visita à octogenária mãe de seu comandante de Brigada, durante a descida do Rio Paraná, o general João Francisco.

Ao apresentar-se, conta ele, foi “brindado com a seguinte declaração”:

- Já conheço a sua fama de protetor dos chimangos.

Perguntei-lhe  meio perplexo porque me atribuía tal fama.

- Porque o senhor acha que os chimangos podem degolar os soldados maragatos, mas nossos maragatos não podem degolar os chimangos...

O major Távora lembrou-se então que após a emboscada contra os provisórios em Saicã, percorrendo o campo de batalha, ele verificara, com tristeza, que alguns adversários vencidos haviam sido degolados pelos vencedores. Protestara junto ao general Honório e dissera que não se sentiria à vontade          como chefe do Estado-Maior de sua coluna se ele não fixasse uma proibição terminante àquele tipo de prática. Evidentemente, sua reprovação era extensiva aos atos de mesmo teor praticados pelas tropas adversárias, como o perpetrado em Los Galpones, ali nas proximidades de Rivera, quando sete marinheiros do encouraçado São Paulo, entre os quais um sobrinho do dr. Assis Brasil, haviam sido degolados ainda em território uruguaio. O desfecho de seu relato porém mostra que a velhinha era dura na queda:

“Meu esclarecimento não pareceu demover a senhora Pereira de Sousa de seus pontos de vista, pois treplicou-me, sem pestanejar:

- Aí é que está o seu engano. O senhor pode fazer chegar o seu pito aos nossos soldados, por intermédio do general Honório. Mas não pode fazer o mesmo aos chimangos por intermédio de sinhô Cunha e outros de seus comandantes de degolas.

Achei mais prudente calar-me para pôr termo ao incidente”.

 

19. A Guerra de Movimento

As derrotas em Itaqui e na fronteira uruguaia levaram as forças revolucionárias a concentrar-se na região de São Luís Gonzaga das Missões, distante 150 km da estrada de ferro mais próxima. Acampadas ali, duas unidades do Exército e centenas de gaúchos aguardavam a chegada dos remanescentes dos destacamentos que, abaixo do rio Ibicuí, haviam cometido a imprudência de reeditar aquilo que se pretendia evitar: as velhas peleas entre chimangos e maragatos.

João Alberto retornara da Argentina por São Borja. Permanecera fora do país apenas o tempo necessário para embarcar num trem e descer na cidade fronteiriça de São Tomé. De São Borja parte para São Luís, com 200 combatentes, originários do 2º Regimento de Cavalaria Independente, que iriam constituir-se no núcleo do 2º Destacamento, a força que estaria sob seu comando, na marcha daDivisão Rio Grande para o Paraná.

Poucos dias depois chegava Siqueira Campos. O grande desafio, segundo relata João Alberto, era “transformar os insucesso e malogros de grupos desordenados em organização militar disciplinada, eficiente...”. A maior dificuldade era convencer os coronéis, majores e capitães maragatos a se enquadrarem numa estrutura militar única, combatendo de acordo com um plano estratégico geral, dentro do qual  cada unidade tinha o seu papel determinado a cumprir.

Aos poucos os jovens tenentes foram superando os obstáculos, ajudados por figuras como o major Nestor Veríssimo, que aceitou o encargo de subcomandante do 2º Destacamento.

Outro dos gaúchos que mais contribuíram para o êxito dessa empreitada foi o coronel Luís Carreteiro, do qual João Alberto apresenta um significativo retrato:

“Era aproximadamente da minha altura (1,80), mas cheio de corpo. Bigode e barba. Cabelos abundantes e grisalhos. Tez escura, denotando mestiçagem... Trajava espetacularmente. Prendia as suas amplas bombachas de pano riscado um cinto largo, cheio de medalhas e enfeites de prata, que lhe caíam sobre as botas pretas, novas e altas, de sanfona. Esporas de prata com corrente e grandes rosetas tilintantes anunciadoras de seus movimentos. Ainda seguros ao cinto, dois revólveres calibre 38 e uma quantidade de balas. Circundava-lhe o pescoço um grande lenço vermelho... Do chapéu de abas largas, também novo, cinza escuro, pendia-lhe uma fita vermelha, onde se podia ler a frase: ‘não dou nem pido ventaje’”.

Toda a tropa foi distribuída em três destacamentos sob comando do coronel Luís Carlos Prestes, com o tenente  Siqueira Campos na chefia do Estado-Maior. Prestes recebera a promoção das mãos do general João Francisco, no início do mês de novembro, em São Borja. Foi o último ato do general, antes de seguir para o exílio.

O 1º Destacamento da Divisão Rio Grande foi confiado ao tenente Mário Portela Fagundes, o 2º Destacamento a João Alberto. O comando do 3º Destacamento coube ao tenente João Pedro Gay. Eram 2.000 homens. O bastante para refutar a afirmação de Isidoro na carta que provocara o afastamento do general João Francisco da Divisão São Paulo:

“Não creio nos três ou quatro mil homens que o senhor ficou de nos mandar para voltarmos pelo Paraná a São Paulo”.

Renovaram-se as esperanças. A estratégia adotada seria a da guerra de movimento, enunciada por Prestes em carta ao general Isidoro com as seguintes palavras:

“Com a minha coluna armada e municiada, sem exagero julgo não ser otimismo afirmar que conseguirei marchar para o Norte, dentro de pouco tempo atravessar o Paraná e São Paulo, dirigindo-me ao Rio de Janeiro, talvez por Minas Gerais. Se a Divisão São Paulo igualmente movimentar-se, em vez de aceitar a guerra de trincheiras, e se marchar conosco em ligação estratégica, e talvez, em algumas circunstâncias, mesmo tática, impossível será ao governo obstar a nossa marcha”.

Siqueira Campos, João Alberto e Prestes eram revolucionários desde o levante que abalara a capital da Republica em 1922. Siqueira comandara a lendária marcha dos 18 do Forte. Exilado na Argentina, logo estabelecera contato com os quartéis da fronteira gaúcha. João Alberto fora preso em razão do malogro do levante da Vila Militar, onde servia na 2ª Bateria do 1º Regimento de Artilharia Montada. Passara cinco meses na prisão, antes de ser transferido para Alegrete. Prestes contraíra tifo, às vésperas do 5 de julho, ficando impossibilitado de promover a sublevação do 1º Batalhão Ferroviário. Desta feita, porém, tomara todo o cuidado para que a saúde não lhe pregasse outra peça.

 

20. Marcha para o Norte

Na véspera do Natal, a coluna se pôs em marcha. Depois de organizada, aguardara ainda algumas semanas, em São Luís, pelas armas que viriam através da Argentina - enviadas pela Divisão São Paulo. Metade da tropa estava bem armada, outra metade não.

Constatada a impossibilidade da remessa dos armamentos, os revolucionários decidem atacar Tupanciretã – 100 km a leste de São Luís. O 7º Regimento de Infantaria da Brigada Militar recém chegado à cidade repele o ataque. A 27 de dezembro, evitando uma manobra de envolvimento realizada por sete colunas governistas, a Divisão Rio Grande toma a ponte sobre o rio Ijuí e embrenha-se na zona da mata, marchando por antigas picadas abertas pelos colonos alemães. Ultrapassando a região agreste, retornam ao campo aberto. No dia 3 de janeiro são alcançados pelas forças perseguidoras de Claudino Nunes Pereira, no Boqueirão de Ramada. O combate é feroz. As baixas nas fileiras revolucionárias são de 50 mortos e 100 feridos. Mas o adversário bate em retirada para Palmeiras. No dia 4, os revolucionários alcançam as matas marginais ao rio Uruguai, pelas quais prosseguem em direção à Santa Catarina.

Prestes assinala que:

“As matas dos rios Uruguai e Iguaçu são talvez as mais densas do Brasil, não se podendo marchar a não ser através de picadas abertas a facão... Era difícil fazer com que os homens andassem pela mata mais de três ou quatro quilômetros por dia”.

As condições da marcha são penosas, particularmente para os gaúchos acostumados a desmontar apenas para comer churrasco e beber chimarrão ao redor do fogo. A carne de panela tomou o lugar do churrasco. A cavalhada foi se enfraquecendo com a falta de pasto, e o terreno úmido embaraçava a caminhada. Com seus ponchos transformados pela chuva constante em verdadeiras“cangalhas”, os gaúchos patinam e atolam na lama suas botas sanfonadas. Trazem o cavalo pelas rédeas e se obrigados a desfazer-se dele carregam a sela nas costas.

Sofrendo na própria carne as conseqüências desse tipo de marcha, o pernambucano João Alberto revelou que em certos momentos de maior dificuldade, chegara mesmo “a concordar com opreconceito gaúcho contra a infantaria”. Em seguida, afirma:

“Marchar a pé não requer valentia, Mas tenacidade, estoicismo, dureza de fibra. São outras qualidades de caráter”.            

No final de janeiro, a vanguarda da Divisão, composta pelo 2º Destacamento, atravessa o rio Uruguai e chega a Porto Feliz, em Santa Catarina. A travessia do grosso é lenta, feita em dezenas de canoas e leva vários dias. A medida que as tropas vão chegando, providenciam abastecimento e descansam. Tinham ainda um longo caminho pela frente: Mais de 30 léguas, pela densa mataria, até atingirem o estradão que serve de divisa entre os estados do Paraná e Santa Catarina e de ligação entre as cidades de Barracão e Palmas.

 

21. Deserção do Tenente Gay

A dureza da marcha produziu uma diferenciação entre os participantes. Temperou o ânimo da maioria. Mas abateu o de considerável número de combatentes. Ao longo de três semanas, desde que abandonaram o campo aberto, após o combate no Boqueirão de Ramada, diversas deserções aconteceram. Na Colônia Militar do Alto Uruguai, pouco antes da transposição do rio, mais de 200 gaúchos solicitaram permissão - e receberam - para abandonarem a tropa e passarem à Argentina.

Mais grave porém foi a atitude do tenente João Pedro Gay, até aquele momento comandante do 3º Destacamento da Divisão Rio Grande.

No dia 3 de fevereiro ele foi preso, a fim de ser submetido a um Conselho de Guerra. Dias antes de sua prisão, Prestes havia convocado uma reunião com os oficiais em função de denúncias que circularam sobre os maus propósitos do tenente.  Ele foi advertido de que poderia ir embora, esse era um direito que,  naquele momento, estava facultado a todo e qualquer combatente. Não poderia, no entanto, levar o armamento e a munição, por serem indispensáveis àqueles que optaram por prosseguir na luta. A reação do tenente foi chorar, dizendo estar sendo vítima de uma infâmia.

Mais tarde, interrogados por Prestes os soldados confirmaram que Gay, valendo-se da posição de comandante do Destacamento,  estava procurando organizar uma deserção em massa.

A decisão do Conselho de Guerra foi a condenação do oficial à morte, por fuzilamento.

A sentença não foi executada. Dois dias antes da data marcada, o tenente Gay fugiu. Prestes contou à sua filha, Anita Leocádia, que anos depois tomara conhecimento de que João Alberto se apiedara daquela alma e facilitara a sua fuga. Mas não há outros testemunhos que referendem a exatidão da assertiva.

O comando do 3º Destacamento foi assumido pelo tenente Siqueira Campos.

 

22. Ataque a Formigas

No dia 6 de janeiro, o major Cabanas participa de uma reunião com os oficiais que respondem pela defesa de Catanduvas. O front havia sido recuado de Belarmino para aquela localidade. Embora a posição fosse mais segura, seus 600 defensores estavam sob pressão das tropas do coronel Álvaro Mariante, compostas de 2.200 homens. A conferência avalia a conveniência de um ataque a Formigas, atrás das linhas das forças sitiantes. O plano previa também uma incursão simultânea, a partir de Formigas e de Catanduvas, sobre as linhas do coronel Mariante, com o intuito de desorganizá-las. Como o general Rondon passava grande parte do tempo no acampamento de Formigas, acompanhando de perto a evolução da situação na frente de batalha, a possibilidade de capturá-lo dava novo alento às forças revolucionárias.

A única possibilidade de execução dessa ousada ofensiva estava na exploração do elemento surpresa. Seria, portanto, indispensável a abertura de uma picada de 30 km, na mata, partindo do rancho de Sapucaï, nas proximidades de Santa Cruz,  até o acampamento inimigo..

Cabanas iniciou a marcha no dia 11, com duas companhias do seu batalhão, a terceira seguiria dois dias depois. Eram ao todo 280 homens. O restante do 6º Batalhão de Caçadores continuaria a guarnecer a antiga posição, no rio Piquiri. No dia 18, haviam rasgado 25 km de mata e construído quatro pontes, uma das quais com 16 metros, sobre o rio Ano Novo. O ataque ocorreu na madrugada do dia 21. Surpreendida, a guarnição não pode fazer valer o peso de sua superioridade numérica.

O comandante geral das forças governistas, porém, não foi encontrado. Conta o major Cabanas:

“O primeiro prisioneiro que fiz deu-me a informação que o general Rondon, devido ao desconcerto de sua limusine, retardou a chegada a Formigas onde já deveria estar”.

Embora espetacular, a investida não surtiu o efeito desejado. Nas imediações do acampamento, o comando governista já havia concentrado forças de efetivo muito superior ao esperado pelos revolucionários.. Em pouco tempo, 600 homens do 2º Batalhão de Caçadores e 1.200 do coronel Varella convergem sobre ele. Durante toda a tarde, Cabanas resistiu ao assédio. À noite conseguiu escoar suas forças para a mata. Nem o general Rondon fora aprisionado, nem pode Cabanas atacar as linhas do coronel Mariante. E encontrou muitas dificuldades para retornar a Santa Cruz, o que só ocorreu em 1º de fevereiro.

 

23. Conversações de Paz

O deputado Batista Luzardo chegou a Foz do Iguaçu em 13 de fevereiro. Veio acompanhado de um capitão do Exército que trazia carta do general Eurico de Andrade Neves, comandante da 3ª Região Militar, sediada no Rio Grande do Sul. A carta propunha a abertura de conversações de paz, na cidade argentina de Posadas, onde já se encontrava o deputado João Simplício de Carvalho.

Luzardo e Simplício representavam o Rio Grande na Câmara Federal. Mas seguiam orientações políticas distintas. O deputado Luzardo fora, até recentemente, um dos principais coronéis da força militar que combatia sob a bandeira do general Honório Lemes.

Em Posadas, para onde se desloca o general Isidoro, a conferência se estende nas preliminares sem chegar a um acordo.

Ainda que as conversações não tenham chegado a estabelecer um cessar-fogo, na prática ele vai se impondo no front de Catanduvas. No dia 24 de fevereiro, os 300 metros que separam as trincheiras inimigas são atravessados por soldados desarmados, de ambos os lados, dando início a uma grande confraternização que se prolonga por mais de quatorze horas. Não é sem dificuldade que os oficiais revolucionários e os governistas trazem seus comandados de volta às posições originais.

No dia 6 de março recomeçam as negociações, em Passo de los Libres. Simplício apresenta a proposta que recebera diretamente do presidente da República.

Pelas condições estabelecidas, os insurretos deveriam entregar todo o armamento em seu poder. O governo se comprometia a “deixar cair no esquecimento esse período de sacrifício e de luto”, empenhando-se para que o Congresso Nacional formulasse uma lei de anistia. Enquanto ela não fosse aprovada, os rebeldes deveriam entregar-se nas cidades indicadas pelo governo. O acordo de paz deveria ser assinado na cidade de Uruguaiana.

Os revolucionários consideraram inconsistentes as garantias oferecidas pelo governo. Firmam em documento a posição de que não baixariam as armas enquanto não fosse revogada a Lei de Imprensa e adotados o voto secreto e o ensino público obrigatório.

Os negociadores solicitam tempo para novas consultas. Porém não voltariam mais a reunir-se formalmente.

 

24. Operação Clevelândia

A 7 de março a Divisão Rio Grande chega em Barracão, no estado do Paraná, fazendo junção com as forças do coronel Fidêncio de Mello. Estabelecido como fazendeiro na região, o coronel era amigo do general João Francisco. Comandando uma força de 78 homens, havia providenciado a abertura de uma picada de Santo Antônio, em Santa Catarina, até a vila paranaense de Benjamin Constant, situada do outro lado do rio Iguaçu, de modo a permitir a ligação das duas divisões.

Barracão fica na antiga região do Contestado. De lá, até Foz do Iguaçu, onde estava instalado o Estado-Maior da Divisão São Paulo, a distância era de 90 km. Uma picada entre as duas localidades, aberta na mata por uma turma do Batalhão Cabanas, dirigida pelo tenente Gastão Maitre Pinheiro, estava em fase final de conclusão.

Mas a última coisa que passava pela cabeça de Prestes era atravessar o  Iguaçu, conduzindo suas tropas ao interior do cerco montado pelo general Rondon à Divisão São Paulo.

Os destacamentos de Siqueira Campos e João Alberto foram lançados sobre Clevelândia e Palmas, na direção Leste, buscando uma junção com os 170 homens das forças paulistas que, dois dias antes da chegada da Divisão Rio Grande à região, haviam dispersado e perseguido o contingente governista que guarnecia Santo Antônio, Barracão e Campo Erê. O objetivo da manobra era prosseguir até a Colônia Mallet e golpear a retaguarda de Rondon, de modo a forçar a abertura de uma brecha que permitisse o escoamento da Divisão São Paulo.

Conta o tenente João Alberto:

“Durante cinco ou seis dias, Siqueira e eu... marchamos juntos. Ao fim da semana, quando já nos aproximávamos do campo de Clevelândia,,, escalamos nossa tropa e coube-me a vanguarda. No mesmo dia, o 2º Destacamento chocou-se com uma coluna inimiga que... marchava em sentido oposto ao nosso.

Daí por diante foi um continuar de pequenos combates...”

Impossibilitados de cumprir a missão, Siqueira e João Alberto tratavam agora de retardar a  progressão da tropa governista em direção a Barracão, fazendo uma “guerra de emboscadas” ao longo de “180 quilômetros”.

Frustrada a tentativa de efetuar a junção com o grosso da Divisão São Paulo fora do cerco estratégico, a Divisão Rio Grande prepara-se para iniciar a marcha para o Norte em direção ao rio Iguaçu. Siqueira e João Alberto são avisados para evitar o contato com o inimigo e rumar também para o Norte.

Em Barracão a situação é delicada. Convergem sobre o 1º Destacamento duas fortes colunas governistas. A primeira vem seguindo os revolucionários, através da mata, desde Porto Feliz. Na luta para retardá-la, ainda em Santa Catarina, tombara em combate, no dia 27 de janeiro, seu comandante, o tenente Mario Portela Fagundes. A outra, vinda do leste, é a que acabara de fazer abortar o ataque à retaguarda de Rondon.

Prestes aguarda até o último instante. Ao anoitecer do dia 24 de março, simula um avanço do 1º Destacamento, sobre a coluna que vinha do Sul, obrigando-a a fixar-se à espera do ataque, na localidade denominada Maria Preta. Em seguida retira-se, sem permitir que a manobra seja detectada. Na escuridão da noite, as duas colunas governistas acabaram por se chocar, passando a trocar tiros entre si. Só na madrugada puderam verificar que o fogo amigo provocara 200 baixas.

         

25. Queda de Catanduvas

Três dias depois, visando antecipar-se à junção das duas divisões revolucionárias, as forças governistas desencadeiam uma violenta ofensiva contra a cidadela de Catanduvas.

A cada 20 segundos uma granada de artilharia explode nas trincheiras revolucionárias. Os combatentes que as defendem são assediados por 4.000 soldados comandados por 17 generais.

O major Cabanas assim descreveu os últimos dias de Catanduvas:

“A artilharia inimiga rompeu vivíssimo fogo, contra nossas posições, ao mesmo tempo em que a infantaria caía com violenta carga de baionetas em todas as trincheiras e destacamentos isolados. Ao primeiro embate foi tomada, na ala direita, nossa posição denominada Cajati... no dia seguinte, o inimigo enveredou pelas matas, abrindo picadas contornou as trincheiras da ala (esquerda)e foi satir a 2.500 metros, na retaguarda... interceptando completamente nossa ligação entre Catanduvas, minha coluna em Floresta e o posto de comando do general Costa... A noite avançava; os nossos soldados detonavam seus últimos cartuchos e a situação era gravíssima... Assim reuniu-se a oficialidade em conferência e tomaram a única solução viável no caso: a entrega da praça, devendo pôr-se imediatamente a salvo como pudessem o coronel Estilac Leal e o capitão Felinto Müller... Ao amanhecer de 30, o inimigo sabendo não existir mais um cartucho, dá o sinal de carga de infantaria, e na nossa trincheira principal, da frente, agita-se tristemente uma bandeira branca”.              

A notícia do desastre colheu João Alberto em plena transposição do rio Iguaçu. Prestes, que já completara a travessia, movimenta o 1º Destacamento em marcha forçada para proteger o cruzamento da estrada Catanduvas-Cascavel- Benjamin-Iguaçu pelos destacamentos de Siqueira Campos e João Alberto. As tropas governistas, no entanto, não progrediram pela estrada, estacionando na posição conquistada. Sobre a rodovia foi então organizada uma nova frente de cobertura às forças revolucionárias que se concentraram em Santa Helena, porto fluvial sobre o rio Paraná, entre Porto Mendes e Foz do Iguaçu.

Logo após a travessia do rio Iguaçu, ainda em Benjamin Constant, no dia 3 de abril, o coronel Prestes e o general Miguel Costa mantiveram um encontro, no qual firmaram o compromisso de prosseguirem na luta, levando as tropas das duas divisões a movimentarem-se continuamente através do território nacional, até reunirem as forças necessárias à derrubada do governo. Para isso, seria necessário romperem imediatamente o cerco, passando ao estado do Mato Grosso.

 

26. O Encontro das Divisões

No dia 12 de abril, em Foz do Iguaçu, realiza-se o encontro decisivo entre diversos oficiais da Divisão São Paulo e o comandante da Divisão Rio Grande. A reunião contou com a presença do marechal Isidoro, que retornara da Argentina dois dias depois da queda de Catanduvas. O comando das forças paulistas que fora transferido ao general Padilha, na ocasião em que Isidoro recebera a promoção, estava agora sob a responsabilidade do general Miguel Costa.

Miguel Costa e Prestes sustentaram a posição do deslocamento imediato para o Mato Grosso. Mas a tarefa não era simples. Guaíra, posição revolucionária mais avançada ao norte e porta de acesso àquele estado, fora evacuada. A ordem, da qual Miguel Costa só tomou conhecimento após a execução, partira do marechal, que considerara inútil manter a cidade, depois da rendição de Catanduvas e de sufocados os levantes das guarnições mato-grossenses de Campo Grande e Ponta-Porã. As rebeliões do 17º Batalhão de Caçadores e do 11º Regimento de Cavalaria tinham sido deflagrados em 27 de março, dia do início da ofensiva governamental sobre Catanduvas.

A síntese das decisões é relatada por Juarez Távora nos seguintes termos:

“1. Considerar frustradas as tentativas de pacificação começadas, por iniciativa dos chefes do governistas, em 16 de fevereiro.

 2. Prosseguir as operações de guerra de acordo com as diretrizes baixadas pelo general  Miguel Costa.

3. Grupar numa divisão, sob o comando do general Miguel Costa, os remanescentes das forças paulistas, sob comando do tenente-coronel Juarez Távora, e os elementos chegados do Rio Grande do Sul, sob o comando do coronel Luís Carlos Prestes”.

O tenente-coronel Cabanas acrescenta:

“... sendo o plano da nova campanha de grande movimentação, acordaram os oficiais superiores, atendendo à idade e ao abatimento físico do marechal Isidoro, do general Padilha e bem assim ao delicado estado de saúde do coronel Estilac Leal, pedir aos três que ficassem no estrangeiro até que fosse possível retornarem ao exercício revolucionário”.

Estilac havia sofrido um ferimento, por estilhaço de granada, no  pescoço.

Concentradas em Santa Helena, as forças revolucionárias escoaram suas tropas por uma picada de 30 km, passando por Porto Artaza até Porto Mendes, correndo a 5 km da margem do Paraná para evitar os cânions dos rios São Francisco Falso e São Francisco. A abertura dessa picada havia sido ordenada pelo general Miguel Costa ainda na primeira semana do mês de abril.

Constatada a impossibilidade da retomada de Guaíra, ao norte, Miguel Costa e Prestes decidiram atingir o Mato Grosso, passando através do território paraguaio. Para que a travessia do rio Paraná não fosse embaraçada pelas forças governistas que se aproximavam perigosamente de Porto Artazas, através da carroçável que partia de Lopeí, a leste, as forças revolucionárias desferiram um contra-ataque que as fez recuar 10 km.

 

27. O Comandante Paraguaio

João Alberto foi encarregado de apresentar ao comandante da guarnição paraguaia de Puerto Adela uma carta na qual os revolucionários expunham as suas razões:

“Por circunstâncias excepcionais e inapeláveis entramos armados no território de vossa Pátria.

Não nos move, neste passo extremo a que nos impelem as vicissitudes de uma luta leal, porém intransigente, pela salvação das liberdades brasileiras, nenhuma idéia de violência contra nossos irmãos da República do Paraguai”.

Datado de 26 de abril, o documento levava as assinaturas do general Miguel Costa; coronel Luís Carlos Prestes; tenentes-coronéis João Alberto, Juarez Távora, Cordeiro de Farias, João Cabanas;  majores Coriolano de Almeida, Paulo Kruger da Cunha Cruz, Virgílio Ribeiro dos Santos; capitães Djalma Dutra, Ricardo Holl, Ary Salgado Freire, Lourenço Moreira Lima e Emídio Costa Miranda. Deixaram de assiná-lo, o tenente-coronel Siqueira Campos e outros oficiais que  se achavam empenhados em ações de cobertura do grosso revolucionário.

O comandante da guarnição paraguaia, porém, não era homem de muita conversa, conforme relata o próprio portador da carta:

“Os motores fracos do Assis Brasil demoraram muito para vencer os 400 metros que nos separavam da margem oposta. Isso bastou para que o capitão paraguaio, comandante da tropa (50 homens) que vigiava e defendia a fronteira da república vizinha, pressentindo nossas intenções de invadir seu território, tomasse posição para repelir o nosso desembarque.

Eu não tinha nenhuma alternativa... desembarquei com o Nestor e uns poucos homens. O resto da tropa ficou detida a bordo... Confabulamos a igual distância de nossas tropas. Ele exigia que eu depusesse armas ou regressasse para o Brasil... Por duas vezes ele abandonou as negociações e voltou para junto de seus homens, dizendo que iria reagir... Pensei então em entrar em luta corporal com o capitão paraguaio a fim de evitar que ele me fuzilasse”.

Afinal o capitão acedeu ao pleito revolucionário. Mas só depois de João Alberto assinar um documento no qual reconhecia que a anuência do comandante se devia à inferioridade numérica em que ele se encontrava frente às tropas brasileiras.

A travessia foi realizada em dois vapores: o Assis Brasil, recondicionado, meses antes, pelos revolucionários, em Porto Mendes, e o Bell, requisitado por eles em Puerto Adela. O deslocamento de toda a Divisão - 700 homens da Brigada São Paulo, 800 da Brigada Rio Grande, 600 animais de carga, sela e tração, todo o material bélico, inclusive uma bateria de artilharia - levou setenta e duas horas.

No dia 30 de abril, depois de marcharem 125 km, em território paraguaio, penetravam no estado de Mato Grosso pelos campos de Amambaí.

 

28. Epílogo

Iniciava assim, sob o comando do general Miguel Costa, a terceira fase da Revolução de 1924: a Grande Marcha de 25 mil quilômetros, através de dez estados brasileiros, ao longo de quase dois anos.

As forças revolucionárias não conseguiram reunir o apoio necessário para derrotar a oligarquia cafeeira. Esta, porém, também não teve força para impor-lhes uma derrota estratégica. 

Em 1927, candidato ao governo do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, realiza a proeza de unificar chimangos e maragatos. Aí começa a gestação da nova onda revolucionária, que, em meados de 1929, se materializaria no amplo leque de forças que se aglutinou em torno de sua candidatura à presidência da República. Nele estariam reunidos os revolucionários de 22 e 24 e alguns de seus mais duros oponentes, no passado. 

Isolada, a oligarquia paulista não hesita em apelar mais uma vez para a fraude eleitoral. A resposta será a Revolução de 3 de outubro de 1930.

 

Sérgio Rubens de Araújo Torres

Texto extraído da Hora do Povo

A Revolução de 1922 - OS 18 DO FORTE

"Que povo não se orgulharia de possuir na raça tais leões?"

 

1. Às Portas da Revolução

Domingo, 2 de julho de 1922. O decreto de fechamento do Clube Militar, anunciado pelo governo, é debatido em Assembleia dirigida pelo marechal Hermes da Fonseca, presidente do Clube. Presentes cerca de 600 oficiais, em clima de grande agitação. Contra o tenente Gwyer de Azevedo, que discursa na tribuna, disparam apartes o major Euclides Figueiredo, o coronel Tertuliano Potiguara, os generais Setembrino de Carvalho, Napoleão Felipe Aché, Carneiro de Fontoura, membros da cúpula militar comprometida com a velha ordem que começava a desmoronar. O relato do episódio, firmado pelo próprio tenente Gwyer de Azevedo, é representativo da tensão que marcava a época. Oito anos e três meses mais tarde, a oligarquia cafeeira seria derrubada do poder pela Revolução de 1930.

Tenente Gwyer: ... Os jornais noticiam que o senhor Presidente da República ...vai mandar seus agentes fecharem amanhã o Clube Militar, baseado numa lei proíbe as sociedades de anarquistas, de cáftens e de exploradores do lenocínio...

Major Euclides Figueiredo: O senhor Presidente da República tem toda a razão.

Tenente Gwyer: Vossa Excelência concorda que o presidente feche o Clube Militar baseado naquela lei?

Major Euclides Figueiredo: Concordo.

Tenente Gwyer: Então Vossa Excelência é cáften? É explorador do lenocínio?Queira desculpar porque, francamente, eu não sabia.

Marechal Hermes: O senhor tenente Gwyer precisa modificar a sua linguagem...

Tenente Gwyer: ... O que revolta é oficiais emprestarem seus galões a um bandido, ... deixando-o cavalgar livremente o Exército e fechar o Clube Militar de maneira infame, injuriosa e opressora.

Coronel Tertuliano Potiguara: Vossa Excelência se atreve a chamar o senhor presidente da República de bandido?

Tenente Gwyer: Ele não é somente bandido, é ladrão também, está provado...

Capitão Teopon Vasconcelos: Vossa Excelência é indigno de vestir a farda do Exército. Não agrida seus superiores!

Tenente Gwyer: Eu falei com o coronel Potiguara, e não com o seu ordenança...

Capitão Teopon Vasconcelos: Vou lhe mostrar quem é o ordenança, seu cachorro...

Marechal Hermes: Se os senhores oficiais continuarem nessa linguagem, serei obrigado a suspender a sessão. Todos nós somos do Exército, e o que está se passando aqui depõe contra nossa cultura e nossa educação. Continua com a palavra o Tenente Gwyer de Azevedo.

Tenente Gwyer: A observação do senhor presidente atinge aqueles que me obrigam a responder com violência aos apartes violentos e indelicados...

Coronel Potiguara: Vossa Excelência é um cretino.

Tenente Gwyer: Cretino é Vossa Excelência. Não estamos no Contestado, onde Vossa Excelência mandava fuzilar a torto e a direito...

General Setembrino de Carvalho: Fosse eu presidente do Clube, esse oficial não continuaria a falar.

Tenente Gwyer: ... Como poderia ser presidente deste Clube um oficial-general que na campanha do Contestado roubou da nação dois mil e seiscentos contos, assinando recibos fantásticos de víveres e deixando os soldados morrerem de fome?

Coronel Potiguara: Vossa Excelência é um caluniador:

Tenente Gwyer: Vossa Excelência toma as dores porque mandou encher de palha os 15 vagões que deveriam levar roupas para os soldados no Contestado, remeteu 30 volumes de pedras no lugar de 30 volumes de granadas  ... fluidificou 20 mil pares de botas de montaria que nunca foram vistas, em ponto algum do planeta, a não ser nas algibeiras de Vossa Excelência, vastas como o oceano...

General Napoleão Felipe: Torna-se necessária uma reação da nossa parte, porque esse oficial está nos enxovalhando.

Tenente Gwyer: Vossa  Excelência também tem rabo de palha..

General Napoleão Felipe: Aponte uma irregularidade minha.

Tenente Gwyer: Vossa  Excelência, na França, requisitou dinheiro do Tesouro Nacional para pagar dívidas contraídas em consequência de jogo e libertinagem... Isso está no relatório do embaixador do Brasil enviado ao Ministério do Exterior.

General Napoleão Felipe: Mas esse embaixador é um canalha...

Tenente Gwyer: Não sou o culpado. Entenda-se com o senhor embaixador.

Marechal Hermes: Não posso aceitar os termos em que o senhor está se expressando...

Tenente Gwyer: Senhor presidente... Estamos às portas da revolução!

 

2. A República do Café

Em 1894, com a ascensão de Prudente de Moraes à presidência, a oligarquia cafeeira paulista assumira o controle da República.

A produção do café viera se expandindo continuamente, desde 1830. A partir de 1870, com a marcha para o Oeste paulista e a introdução da mão de obra assalariada, esse crescimento foi fortemente acelerado. Porém, no final do século, grandes dificuldades despontaram no horizonte.

Em 1893, a saca de café no mercado internacional estava cotada a 4,90 libras. Em 1899, o preço caíra para 1,48 libras - uma queda de 70% em seis anos. Sob comando dos cafeicultores, a resposta do governo era a desvalorização cambial. A oligarquia cafeeira recebia menos libras por cada saca de café. Mas compensava a perda no momento em que trocava as libras valorizadas pelos mil-réis desvalorizados.

Do outro lado da moeda, o preço, em mil-réis, dos produtos importados se elevava. Como a oligarquia não queria nem ouvir falar em política de industrialização, o país seguia importando quase tudo o que consumia. Portanto, quem acabava pagando a conta da política de manutenção dos lucros do café através da desvalorização cambial era o povo, assolado por uma inclemente carestia.

Em 1901, a produção nacional de café atingiu 16,3 milhões de sacas, enquanto o consumo mundial era de apenas 15 milhões. O problema tornava-se mais grave.

Em 1906, uma nova política foi inaugurada, através do Convênio de Taubaté. O governo paulista - secundariamente os de Minas e Rio -, com o aval do governo federal, contrairia empréstimos junto aos bancos ingleses e norte-americanos para comprar e estocar café, de modo a que a oferta excessiva do produto não acarretasse a redução dos preços.

O resultado era previsível: estoques invendáveis se acumulariam e os bancos não abririam mão de receber seus empréstimos. Para atendê-los o governo acabaria promovendo a socialização dos prejuízos, drenando os recursos do conjunto da sociedade.

Batizada de política de valorização do café, esse expediente arquitetado para garantir lucros à oligarquia cafeeira e ao sistema financeiro internacional, às custas da expropriação de todos os demais setores da sociedade, perdurou até a Revolução de 1930, convivendo, inclusive, em vários períodos com a desvalorização cambial.

Tal situação se refletiria diretamente sobre o sistema político. Na impossibilidade de mantê-la através de regras minimamente democráticas, seus beneficiários transformaram o processo eleitoral num grosseiro cambalacho.

Além do voto a bico de pena - aberto e não secreto - que propiciava toda a sorte de pressões, intimidação e encabrestamento dos eleitores, o sistema de apuração alterava escandalosamente o veredicto das urnas.

A designação de todos os componentes das mesas eleitorais era de responsabilidade exclusiva dos presidentes das casa legislativas. Depois de colhidos e contados, os votos eram incinerados. Sobravam as atas, cuja validação e totalização também estavam sob estrito controle dos presidentes dos legislativos.

Quando isso não se mostrava suficiente para alijar os candidatos oposicionistas, as comissões de verificação de poderes das Assembleias Estaduais e da Câmara Federal, nomeadas pelo mesmo critério, se encarregavam da degola: termo pelo qual celebrizou-se o ato de transformar candidatos derrotados em vencedores e vice-versa.

Tal sistema eleitoral, fraudulento até a medula, garantia às elites estaduais o controle sobre sua província e à oligarquia paulista, coadjuvada pela mineira, o controle sobre a máquina federal.

Só uma única vez, em 1910, uma cisão entre paulistas e mineiros produziu a brecha que levou à presidência da República um candidato fora do eixo café-com-leite, o marechal Hermes da Fonseca.

 

3. As Eleições de 1922

A pressão que a oligarquia cafeeira mantinha sobre a sociedade acabaria explodindo nas eleições presidenciais de 1º de março de 1922. Os estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia lançariam Nilo Peçanha, contra o candidato oficial Artur Bernardes - a quem a voz do povo, revelando notável antipatia, logo carimbaria com os apelidos de Seu Mé e Rolinha.

O Clube Militar, presidido pelo marechal Hermes, coloca-se frontalmente contra a candidatura situacionista. Empurrado para um papel cada vez mais subalterno, desprestigiado pelos baixos soldos, mas cioso do papel preponderante que desempenhara na Abolição e na constituição da República, o Exército via com olhos cada vez mais críticos o rumo tomado pelo país.

A gota d' água viria no dia 9 de outubro de 1921. O jornal carioca Correio da Manhã publica em primeira página uma carta de Bernardes dirigida a seu principal colaborador, o senador Raul Soares, lavrada nos seguintes termos:

"Estou informado do ridículo e acintoso banquete dado pelo Hermes, esse sargentão sem compostura, aos seus apaniguados, e de tudo que nessa orgia se passou... esse canalha precisa de uma  reprimenda para entrar na disciplina. Veja se o Epitácio mostra agora sua apregoada energia, punindo severamente esses ousados... A situação não admite contemporizações; os que forem venais, que é quase a totalidade, compre-os com todos os seus bordados e galões".

Os protestos de Bernardes quanto à falsidade do documento não encontraram eco na oficialidade. Uma longa, desgastante e acirrada polêmica sobre a autenticidade da carta arrastou-se durante meses. A ideia que ficou pode ser resumida numa afirmação que revela o grau de radicalização atingido pelo confronto:

Se não escreveu, foi o que disse. E se não disse, é o que pensa.

Nos últimos dias de dezembro, o General Ximeno de Villeroy, depois de condenar com veemência a "desbragada delapidação dos cofres públicos" e a "onda de lama que ameaça submergir a República" lança um dramático apelo:

"Republicanos! Até quando sofreremos tanta ignomínia e abjeção? Uni-vos que é chegada a hora de fazermos justiça implacável! Discípulos de Benjamin Constant! Soldados de Floriano e Deodoro, que vos importam os insultos de um politiqueiro de baixa estofa?"

A campanha da Reação Republicava, nome pelo qual a chapa oposicionista evocava o compromisso com a causa pública contra o processo de privatização do Estado promovido pela oligarquia cafeeira, empolga as ruas. Era absolutamente nítido o contraste entre a vibração produzida pelas duas campanhas. No carnaval, cantada e tocada até a exaustão, apesar de proibida pela polícia, a marchinha de Freire Júnior e Careca, Ai Seu Mé, renovava as esperanças:

 Ai, Seu Mé!

Ai, Seu Mé!

Lá no Palácio das Águias, olé!

Não hás de pôr o pé!

               

4. Tribunal de Honra

Encerrada a votação, Nilo Peçanha começa a articular, com o apoio do Clube Militar, a criação de um Tribunal de Honra, para garantir a "apuração isenta" do pleito. Em favor da tese, é invocado o exemplo norte-americano das eleições presidenciais de 1876. 

Ao substituir a comissão de verificação de poderes do Congresso, o Tribunal de Honra poria em cheque o principal trunfo da oligarquia para produzir a vitória de seu candidato: a fraude.

A proposta ganha força na sociedade. Os pronunciamentos militares se sucedem. O presidente Epitácio Pessoa tenta contê-los através de atos administrativos, transferências, punições, o que só faz elevar a temperatura.

A oficialidade jovem revela-se cada vez menos disposta a aceitar que as eleições terminem num novo cambalacho. Os tenentes sonhavam com um Brasil livre dos grilhões da monocultura cafeeira, renovado pelo voto secreto, educação pública, industrialização, moralidade administrativa, erradicação da miséria. A fraude eleitoral significava o contrário. Uma ideia vai ganhando força nos quartéis: Tribunal de Honra ou Revolução!

No mês de abril, são presos quatro aviadores navais, sob a acusação de planejarem o bombardeio do trem presidencial, que transportaria Epitácio Pessoa em sua viagem de Petrópolis para o Rio de Janeiro, no dia 28.

Na noite de 1º de maio, o presidente realiza uma reunião de emergência, no Palácio do Catete, com os mentores da candidatura oficial, para avaliar a conveniência de, como resposta ao Tribunal de Honra, promover uma reforma no regimento do Congresso, para que a comissão de verificação de poderes ganhasse o caráter de comissão de arbitragem constituída por três representantes de cada candidato. Seria uma proposta de acordo, que contava com o apoio de Nilo Peçanha.

Os ministros da Guerra e da Marinha alertam para o estado agudo e explosivo da crise militar e consideram o acordo uma boa saída.

O senador Raul Soares - já eleito para substituir Bernardes no governo mineiro - contesta a ideia. Argumenta que tal comissão, por ser paritária, terminaria seu trabalho num impasse, não reconhecendo nenhum dos dois candidatos, o que acarretaria a anulação do pleito.

A bem da verdade, a renúncia dos candidatos e a convocação de uma nova eleição não estavam fora das cogitações de Epitácio. Em carta a Bernardes, Raul Soares relata o diálogo que manteve com o presidente:

-  O Artur Bernardes - é a minha convicção - não se aguentará 24 horas no Catete... É possível que aqui ainda obtenha certo apoio da guarnição, porque está organizada com o máximo de cuidado... Mas e os estados? As deposição de governadores partidários de Bernardes se sucederão. Não ficará um só governo de pé e o Bernardes não terá forças para restabelecer a ordem. Teremos, pois, a revolução, a anarquia e o mais que se pode prever.

- De acordo com a sua exposição só há uma solução: a desistência do Artur...

- Exatamente, a desistência de Bernades seria a solução.

O senador paulista Álvaro de Carvalho, que havia apoiado a tese do entendimento, comunica, no encerramento da reunião, o recado que Washington Luís lhe transmitira através de uma ligação telefônica: São Paulo não aceita nem reforma, nem renúncia, nem qualquer alteração das regras eleitorais. O pronunciamento do governador reafirmava os termos da nota do Partido Republicano Paulista, porta voz da oligarquia cafeeira, contra as tentativas de apaziguamento realizadas antes da eleição: 

"São Paulo, como sempre, assumiu atitude definida e definitiva".

O assunto estava encerrado. No dia 7 de junho, o Congresso proclamaria a vitória de Bernardes. Porém, até a posse, em 15 de novembro, muita água ainda haveria de rolar por baixo e por cima da ponte.

 

5. O Plano Revolucionário

Fechadas as portas à saída política, a solução revolucionária passa ao centro da cena. O plano que vai sendo arquitetado tem por objetivo estratégico a obtenção do controle sobre 1ª Divisão de Infantaria, sediada na Vila Militar, para, com base nela, organizar uma coluna revolucionária que marchasse até o Catete e depusesse o governo.

Os revoltosos acreditavam que com apoio no 1º Regimento de Infantaria e em unidades situadas nas proximidades - Escola Militar de Realengo, Batalhão Ferroviário, Batalhão de Engenharia, Escola de Aviação - seria possível forçar o 2º Regimento de Infantaria e demais corpos da 1ª Divisão de Infantaria a se integrarem ao movimento.

Obtido esse resultado, o marechal Hermes, escoltado por um piquete do 15º Regimento de Cavalaria, assumiria o comando da coluna que iniciaria o seu deslocamento pelo eixo ferroviário da Central do Brasil. Na região do Méier, previa-se um confronto com as tropas da Marinha, do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária, da 3ª Companhia de Metralhadoras Pesadas e do 3º Batalhão de Infantaria da Polícia Militar.

A vanguarda revolucionária suportaria o choque, enquanto a retaguarda, tomando o rumo de Jacarepaguá, se deslocaria pela estrada do Pica-Pau, em direção à Tijuca, visando a Zona Sul, por onde avançaria sob a cobertura dos canhões do Forte Copacabana e da Fortaleza de Santa Cruz, também previamente sublevados, para alcançar o Palácio das Águias, bairro do Catete, sede do governo federal.

Hermes da Fonseca Filho, biógrafo do marechal, apresenta a seguinte avaliação:

"Esse plano não deixava de ser bem estruturado, pois enquanto o combate no Méier empolgasse as atenções do governo, levando-o a concentrar ali todos os reforços, o ataque revolucionário diversionista pelo lado Tijuca-Copacabana-Gávea desenvolver-se-ia a toque de caixa".

O plano previa também a sublevação da guarnição federal de Mato Grosso, chefiada por seu comandante, o general Clodoaldo da Fonseca.

 

6. O Fechamento do Clube Militar 

Durante o mês de junho, a tensão política se eleva. O governador de Pernambuco protesta contra a intervenção de Epitácio Pessoa nas eleições daquele estado. O presidente alega inocência. O incidente, porém, desencadeia uma escalada que culmina no levante de 5 de Julho.

Uma concorrida Assembleia do Clube Militar, realizada no dia 28 de junho, aprova por aclamação o telegrama do marechal Hermes ao coronel Jaime Pessoa, comandante militar de Recife, recriminando a intervenção do Exército nos incidentes contra o governo estadual, provocados pelos Pessoa de Queirós, sobrinhos de Epitácio. Os jornais de Recife estampam o texto do documento. A violência em curso já havia provocado a morte do dentista Tomás Coelho, com um inconfundível tiro de fuzil mauser que convulsionara o estado.

Diz o telegrama:

"O Clube Militar está contristado pela situação angustiosa em que se encontra o Estado de Pernambuco, narrada por fontes insuspeitas que dão ao nosso glorioso Exército a odiosa posição de algoz do povo Pernambucano. Venho fraternalmente lembrar-vos que mediteis nos termos dos artigos 6º e 14º da Constituição, para isentardes o vosso nome e o da nobre classe à que pertencemos da maldição de nossos patrícios... Não esqueçais que as situações políticas passam e o Exército fica".

Em sua resposta, o coronel Pessoa, também parente de Epitácio, comete a imprevidência de sublinhar que estava agindo por ordens superiores - "outro não é nem será meu intuito que obediência à lei e autoridades constituídas". A indiscrição expõe e deixa furioso o presidente da República.

No dia seguinte, o coronel é forçado a pedir demissão do comando da 6ª Região Militar. Epitácio incumbe também o ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, de interpelar o marechal Hermes sobre a autoria do telegrama que considera desrespeitoso à sua autoridade.

Em 1º de julho, o marechal e a diretoria do Clube Militar reafirmam sua responsabilidade sobre o telegrama. O governo anuncia, então, duas decisões explosivas. O fechamento do Clube Militar por seis meses, baseado na Lei Adolfo Gordo, que autorizava a interdição - a bem da moral pública - de casas de tavolagem e lenocínio, antros de vigaristas e rufiões, sociedades de cáftens e anarquistas. A outra seria uma medida disciplinar, sob a forma de repreensão, contra o marechal Hermes, que repele pronta e energicamente a punição dirigindo-se à Epitácio nos seguintes termos:

"Considerando que a minha alta patente e a condição de chefe do Exército nacional me conferem tacitamente o direito de aconselhar e encaminhar na senda honrosa, sempre trilhada pelas forças armadas, àqueles oficiais que porventura possam ser mal orientados... declaro à vossa excelência que não posso aceitar a injusta e ilegal pena que me foi imposta"..

No dia 2 de julho, Hermes preside a tormentosa Assembleia do Clube Militar, na qual o tenente Gwyer lança a dramática advertência: "estamos às portas da revolução". Naquele momento, mais que desejo ou vaticínio, essa era a constatação de um fato.

 

7. Preparativos Finais

Condenando o decreto de suspensão do Clube e a repreensão ao marechal Hermes, o Correio da Manhã publica um editorial incendiário, no dia 3 de julho, onde  afirma:

"Afinal o crime do marechal Hermes e do Clube Militar foi o de terem em documento público aconselhado o respeito a Constituição... Não é preciso mais nada para saber que entramos num estado revolucionário da pior espécie, aquele em que é o agente da ordem que o provoca e entretém. O fechamento do Clube Militar toma o caráter de uma medida em que só se vê o fel que amarga as resoluções de pura vingança"..

O ultraje aos militares e oposicionistas em geral não ficaria sem resposta.

No bairro do Leme, o general Joaquim Inácio em reunião com cem revolucionários, civis e militares de todas as armas, que vinham há meses preparando o levante, fixa o seu início para uma hora da madrugada do dia 5. 

Um dos presentes à reunião era o tenente Antônio de Siqueira Campos, brilhante oficial do Forte Copacabana. Nascido numa fazenda de café, em Rio Claro, interior de São Paulo, leitor assíduo de textos sobre a história do Brasil e a revolução mexicana de Villa e Zapata, ocorrida na década anterior, Siqueira, com 24 anos de idade, seria o protagonista da epopeia que o transformaria no grande baluarte do Movimento Tenentista.

Das seis fortalezas que guarnecem a baía da Guanabara, Copacabana (1ª Bateria Isolada de Artilharia de Costa) era a mais moderna. Com suas cúpulas protegendo gigantescos canhões de 305 milímetros, o Forte Copacabana era o que dispunha de maior poder de fogo. Sua guarnição estava sob o comando do capitão Euclides Hermes, filho do marechal Hermes.

Os revolucionários contavam também como certa a adesão da Fortaleza de Santa Cruz (2º Regimento de Artilharia). As demais - Vigia, Laje, São João e Pico - dependeriam da evolução dos fatos. Mas Copacabana e Santa Cruz, pela localização e potência de fogo, eram as principais unidades de artilharia da Capital da Federal.

A 3 de julho, o Forte acelera os preparativos para a revolução. A despensa é abastecida com víveres para um mês; barricadas com centenas de sacos de areia são erguidas em pontos estratégicos; a guarda é reforçada. Siqueira Campos minara diversas áreas do terreno, desde o portão da guarda até o farol. Concentra-se, agora, em recuperar o holofote da unidade.

 

8. A Prisão do Marechal Hermes

Às 23h, por ordem do Presidente da República, o marechal Hermes é preso e recolhido ao 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha. A afronta viria colocar mais lenha na fogueira, e sua libertação, ao meio-dia do dia 4, não detém a marcha dos acontecimentos.

A truculência empregada pela oligarquia cafeeira para sufocar o questionamento à fraude eleitoral que patrocinara voltava-se contra ela.

O líder das bancada fluminense, senador Irineu Machado, pronuncia inflamado discurso que conclui dizendo:

"Espero dos acontecimentos e da história os grandes dias em que arrancaremos desse pântano mefítico a nossa nacionalidade. Será essa, ainda uma vez, a obra  grandiosa do Exército".

Também o líder da bancada gaúcha na Câmara Federal, deputado Otávio Rocha, não poupa adjetivos para incentivar a resposta revolucionária que está prestes a ser desencadeada:

"De joelhos, nunca. De pé e de frente eu encaro o ditador...  fiquem para todo e sempre malditos os que... tiveram a ilusão de que os césares eram eternos e o poderio da Terra o supremo bem"..

A única pessoa a quem foi permitido visitar o Marechal Hermes, durante a sua estada de dezessete horas na prisão, foi o ex-presidente Nilo Peçanha. A conversa foi reservada e não há relato sobre o que foi discutido. Porém o marechal Hermes não deixou o 3º Regimento de Infantaria com a mesma firmeza de propósitos que havia demonstrado até antão. Talvez porque Nilo de alguma forma o tenha feito entender que tanto ele quanto o governador Borges de Medeiros, que até então vinham apoiando seus pronunciamentos, consideravam inoportuno o recurso à insurreição naquele momento.

Borges formalizaria essa posição em manifesto publicado no dia 7, no jornal gaúcho A Federação:

"Nada mais absurdo nem mais condenável do que corrigir uma violência com outra violência"...

Declarando-se "solidário com os vencidos", Nilo Peçanha empregaria seus últimos vinte meses de vida na defesa dos tenentes rebelados, e em conversações que conduziriam à eclosão de novo levante, na cidade de São Paulo, dando início à Revolução de 1924.

                 

9. O Forte Está Pronto

À noite, cerca de duzentos oficiais, praças e voluntários civis começam a cruzar os portões do Forte, para reforçar a sua guarnição. Às 22h toda uma bateria do Forte do Vigia, situado na outra extremidade da praia de Copacabana, bairro do Leme, integra-se nesse esforço. São 54 homens comandados pelo tenente Fernando Bruce.

Às 23h30 o general Bonifácio Gomes, comandante do 1º Distrito de Artilharia de Costa, chega ao Forte com ordem expressa de destituir o capitão Euclides Hermes do comando da unidade. Vem acompanhado do capitão José da Silva Barbosa, a quem pretende investir na função. Ambos são presos.

Uma companhia do 3º Regimento de Infantaria, que havia sido deslocada para apoiar a missão do general, é intimada a recuar. O tenente Mário Carpenter, que integra a companhia, confraterniza com os revoltosos e também adere ao levante.

À 1h15 de 5 de julho, um disparo para o céu anunciava o compromisso do Forte Copacabana com a revolução. Conforme o combinado, as outras fortalezas deveriam confirmar o apoio disparando também os seus canhões. A resposta é o silêncio.

Mas o Forte não se deixa impressionar. Seus canhões alvejam a desabitada ilha de Cotunduba. Depois começam os tiros para valer: os dois primeiros, dirigidos ao 3º Regimento de Infantaria e ao Forte do Vigia.

 

10. O Levante da Escola Militar

Às 23h do dia 4 teve início o levante da Escola Militar de Realengo. Por iniciativa do corpo de oficiais instrutores, composto por diversos protagonistas das futuras rebeliões tenentistas, entre os quais os tenentes Victor César da Cunha Cruz, Ricardo Hall, Caio de Albuquerque Lima, Edmundo Macedo Soares e Juarez Távora, cerca de 600 cadetes de várias armas entram em forma e começam a ser armados e municiados.

Patrulhas foram destacadas para vigiar a residência de oficiais sabidamente contrários ao movimento.

Foram detidos o comandante da Escola, general Monteiro de Barros, e um cadete que se recusou a participar do levante.

À meia-noite, sob o comando do coronel Xavier de Brito, diretor da Fábrica de Cartuchos de Realengo e veterano da campanha de Canudos, a Escola deslocou-se pela estrada São Pedro de Alcântara em direção à Vila Militar - a 10 quilômetros de distância. Antes de alcançar a parada de Magalhães Bastos,  um elemento de ligação trouxe a informação de que toda a tropa aquartelada na Vila estava de prontidão, e sob o completo controle dos oficiais governistas.

Cinquenta anos mais tarde, Juarez Távora descreveria o episódio, com as seguintes palavras:

"Soube-se mais tarde que apenas alguns elementos de uma Companhia do 1ºRegimento de Infantaria haviam sido sublevados por um dos seus oficiais,o tenente Frederico Cristiano Buiz....

Diante dessa grave situação, o comando da Escola deslocou a marcha da Coluna para ocupar posição no morro da Caixa d'Água, com bom domínio sobre toda a Vila  Militar... Ao clarear do dia 5, o comando da Escola determinou o disparo de alguns tiros de shranpnel da artilharia, sobre os quartéis da Vila... A reação não demorou... Por volta das 9h, a situação estava claramente definida; toda a tropa da Vila se movimentava contra a Escola. Entre os elementos desta já havia um morto - o cadete Fedorval Xavier Leal - e um outro ferido... Seria insensato e desumano prosseguir naquele duelo desigual... A retirada foi feita em ordem".

                       

11. Malogra a insurreição

Na Vila Militar estava aquartelado o 1º Regimento de Infantaria, principal corpo de tropa a partir do qual os revolucionários pretendiam irradiar o levante às demais unidades da 1ª Divisão de Infantaria.

O comandante do regimento era o coronel Nestor Sezefredo Passos, oficial governista que, às 22h15 do dia 4, recebeu ordens para prender diversos oficiais que haviam tomado o trem na Estação Central com destino à Vila Militar. O coronel Sezefredo incumbiu o tenente-coronel Álvaro Mariante de organizar patrulhas para aprisionar os insurretos, antes que esses sublevassem o regimento.

Assim, quando desembarcaram na Vila Militar, foram presos o capitão Agenor Aguiar, os tenentes Aníbal Duarte, Leônidas Hermes da Fonseca e outros três revoltosos. Também num alojamento da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, conhecida como Baiúca, as patrulhas do tenente-coronel Mariante detiveram vários oficiais. Desse modo, mais de uma centena de revolucionários foi sendo detida, desarticulando o levante.

O tenente João Alberto Lins e Barros, que poucos anos mais tarde se converteria num destacado expoente do Movimento Tenentista, integrava, na época, o 1º Regimento de Artilharia Montada, sediado na Vila Militar. Eis o testemunho que apresenta sobre o seu malogrado batismo de fogo:

"No dia 4 de julho, durante a noite, todos nós, revolucionários, estávamos a postos para erguer a tropa ao primeiro sinal... Éramos poucos, dentro de um regimento considerado legalista e precisávamos de um apoio vindo de fora do quartel para fazer o levante... fomos presos com a impressão de que o movimento abortara. Só depois de transferidos de unidade, quando nada mais podíamos fazer, soubemos que a Escola  Militar e o Forte Copacabana estavam revoltados".

À meia-noite, no cassino do 1º Regimento de Infantaria, estavam reunidos vários grupos de oficiais. Entre eles encontrava-se o 2º tenente Frederico Cristiano Buiz. Pouco antes da 1h, Buiz dirigiu-se à sua companhia, armou os praças e formou dois pelotões. O  primeiro recebeu a missão de guarnecer a frente do quartel. Com o outro sob seu comando, retornou ao cassino. O objetivo era prender o coronel Sezefredo e os oficiais governistas que ali se encontravam.

O cassino foi cercado. Irrompendo pela porta, pistola à mão, seguido por praças de armas embaladas, Buiz surpreendeu os oficiais, mas não conseguiu dominar a situação. Após um cerrado tiroteio, no qual foi mortalmente atingido o capitão José Barbosa Monteiro, Buiz acabou dominado. Falhara o levante do 1º Regimento de Infantaria.

Nas demais unidades o quadro não era alentador. O capitão Luís Gonzaga Borges conseguiu sublevar a Companhia de Pontoneiros do 1º Batalhão de Engenharia, mas não logrou assumir o controle da unidade. O tenente Luís Carlos Prestes, outro futuro vulto da história nacional, responsável pela rebelião no 1º Batalhão Ferroviário, contraíra tifo, no dia 13 de junho, ficando fora de combate. Na Escola de Aviação Militar, quando os pilotos e observadores se dirigiam para o campo, a fim de experimentar os motores das aeronaves, um batalhão governista ocupou os hangares, neutralizando a rebelião. Também na Escola de Sargentos de Infantaria, Fortaleza de Santa Cruz e 15º Regimento de Cavalaria, unidades cuja adesão era esperada, os oficiais revoltosos retraíram-se frente aos reveses iniciais.

Às 6h do dia 5, o marechal Hermes da Fonseca e o general Joaquim Inácio são presos num sítio, onde aguardavam contato com os comandantes das unidades rebeladas. O sítio de propriedade de um dos quatro filhos do marechal, o deputado Mário Hermes, ficava próximo à Vila Militar, nas imediações da estação ferroviária cujo nome lhe rendia homenagem - Marechal Hermes.

A Escola Militar ainda sustentava um desigual duelo de artilharia com as forças da Vila. Às 9h empreenderia a retirada, seguida da rendição ao meio-dia. Só no Forte Copacabana a bandeira da revolução seguia desfraldada.

A guarnição militar do Mato Grosso havia cumprido o compromisso de sublevar-se, concentrando em Três Lagoas, na fronteira paulista, a Divisão Provisória Libertadora, formada a partir das diversas unidades rebeladas. No entanto, surpreendida pela evolução desfavorável dos acontecimentos no Rio de Janeiro, permaneceu estacionada até a deposição das armas, em 13 de julho

 

12. Falam os Canhões

Na manhã do dia 5 os disparos do Forte continuam a atingir pontos da cidade, com uma precisão que alarmou as autoridades e assombrou os membros da Missão Militar Francesa.

Durante a fase de organização do levante, Siqueira Campos e outros oficiais do Copacabana haviam preparado cuidadosamente novas tabelas para o tiro de canhões, com redução de carga, para modificar a trajetória dos projéteis, encurtando seu raio de ação. Os cálculos foram revisados por um antigo professor de balística da Escola Militar. Com isso os canhões do Forte tornaram-se aptos a atingir alvos da cidade considerados invulneráveis.

Às 9h, o general Carneiro de Fontoura, chefe da 1ª Região Militar, nomeia o coronel Nepomuceno da Costa comandante das Forças de Assalto ao Forte Copacabana, e encaminha uma intimação à sua guarnição.

A resposta foi um disparo sobre o quartel-general situado no edifício do Ministério da Guerra, na praça Duque de Caxias. O tiro não foi preciso, atingiu os fundos do prédio da Light and Power e a casa número 216 da rua Barão de São Félix.

O ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, tomou então a iniciativa de telefonar para o Forte, a fim de protestar contra o bombardeio. Calógeras não era militar. Não percebeu que sua reclamação indicava com precisão a localização do alvo atingido. Com a informação prestada pelo ministro, os revolucionários prontamente refizeram os cálculos, ajustaram a pontaria e realizaram novo disparo. O impacto do obus destruiu parte da ala esquerda do Palácio da Guerra. Em seguida, mais dois tiros explodiram no pátio interno do prédio, onde tropas do Exército e da Marinha estavam estacionadas, espalhando morte e destruição. Rapidamente o quartel-general foi transferido para o Corpo de Bombeiros, do outro lado do Campo de Santana,  e,  em seguida,  para o quartel-auxiliar do Largo de Humaitá.

 

13. O Forte esta isolado

Às 4h da madrugada do dia 6, o capitão Euclides Hermes reúne todos os oficiais que participam da defesa do Forte e expõe claramente a situação vivida. O levante da Vila falhara. A Escola Militar tinha deposto as armas. O mesmo ocorrera com o 15º de Cavalaria. A fortaleza de Santa Cruz não havia aderido. O marechal Hermes e o general Joaquim Inácio estavam presos. O Forte Copacabana era a única unidade que se mantinha rebelada. Estava completamente isolado. Poderia resistir por mais tempo, em virtude de seu imenso poder de fogo, mas as chances de vitória eram inteiramente nulas.

O capitão prosseguiu declarando que, em vista da precariedade da situação, não se considerava no direito de sacrificar seus companheiros. Facultava, portanto, a cada um, a opção pela resistência ou pela retirada.

Desse modo, dos 301 homens que iniciaram a insurreição do Forte Copacabana, restaram apenas 29 - cinco oficiais, dois sargentos, um cabo, dezesseis praças e cinco voluntários civis. Os demais deixaram as armas e se retiraram.

 

14. Contra-Ataque Mortífero

Pouco tempo depois, a Marinha inicia uma ofensiva contra o Forte.

Os encouraçados São Paulo e Minas Gerais, escoltados pelo destróier Paraná, cruzaram a barra. Os revolucionários são atacados pelo fogo dos canhões de 305 milímetros do São Paulo. O impacto das granadas chega a estremecer o solo. Ao organizarem o contra-ataque, os 29 defensores constatam que o motor que movimenta seus canhões de 305 milímetros está inutilizado. Então, manobrando a braço os canhões de 190 milímetros, a guarnição responde ao fogo.

O São Paulo é atingido. O tiro disparado pelo tenente Siqueira Campos explodira na torre de comando. A esquadra recua para uma distância segura, e não volta a entrar em ação. O Forte faz novos disparos contra a Ilha das Cobras, o Forte do Vigia, o Palácio do Catete.

 

15. A Prisão do Capitão Euclides

 

Sensível às 72 toneladas de granadas de artilharia que abarrotavam os paióis da fortaleza, o ministro da Guerra propõe uma conversação de paz, aceita pelos insurretos.

O major Egídio Moreira de Castro e o tenente-aviador Pacheco Chaves são enviados pelo governo. No momento em que o tenente Newton Prado cruza o portão para recebê-los, dois hidroaviões da Marinha sobrevoam o forte, bombardeando-o. A missão de paz degenera em conflito verbal e físico entre os embaixadores.

Indignado, o capitão Euclides Hermes toma o telefone e protesta. Calógeras desculpa-se, argumenta que foi um engano: a Marinha não fora devidamente informada sobre a trégua. Lembrando as relações cordiais que mantinham até o início do levante, propõe um encontro pessoal entre ambos. A oferta é aceita pelos revolucionários.

Depois de passar o comando do Forte ao tenente Siqueira Campos, o capitão Euclides, a bordo do táxi 231, transpõe as linhas governistas sem ser molestado. Chegando à residência de seu pai, em Botafogo, telefona a Calógeras, que pede para aguardá-lo. Mas quem comparece é o capitão Marcolino Fagundes que lhe dá voz de prisão e o conduz ao Palácio do Catete. Lá, visivelmente embaraçado, Calógeras explica que: por decisão posterior do Presidente da República era forçado a prendê-lo, devendo também o Forte render-se incondicionalmente.

Às 12h30, o capitão Euclides, por telefone, comunica a Siqueira Campos o resultado da missão de paz:

Estou preso, Siqueira. Eles traíram a palavra de honra dada... Eles querem que os oficiais se rendam, que deixem o forte, marchando desarmados,  um a  um, até se entregarem às tropas legais.

As mais próximas se encontravam na Praça Serzedelo Correia, a mais de    um quilômetro de distância. A oligarquia cafeeira pretendia liquidar a fatura com uma lição exemplar e definitiva. Em troca de suas vidas, à guarnição rebelada não bastaria render-se. A humilhação era o preço a ser pago por haverem levado a luta até aquele ponto.

           

16. A Decisão que Mudou a História

Na sala de comando reúnem-se os quatro últimos oficiais que se mantinham em armas pela revolução. Todos eram tenentes. Nenhum tinha mais de 25 anos. Dois eram membros da guarnição original do Forte Copacabana: Siqueira Campos e Newton Prado. Outros dois haviam se juntado a ela no momento da sublevação: Mário Carpenter e Eduardo Gomes. Reinava uma paz temporária, pois o dispositivo legal recebera ordens de aguardar a rendição.

A decisão que sai da reunião é ousada, surpreendente, e muda o rumo da história, transformando a derrota do levante numa esmagadora vitória moral dos revolucionários.

Ao invés de rendição, a resolução é a de marcharem contra a tropa governamental, armados de fuzis e revólveres. Se fossem atacados, reagiriam. Se não, a parada seria no Palácio do Catete. O ânimo retorna e os preparativos são realizados em ritmo febril.

Siqueira pede ao sergipano Manoel Ananias dos Santos, o soldado 108, e ao praça José Olympio, que desçam a bandeira do Forte. Dividiu-a em 29 pedaços, dando um a cada revolucionário presente - cujos nomes foram gravados a prego e bala numa das paredes internas da fortaleza. O último guardou-o consigo, para o capitão Euclides. Todos se municiaram, enchendo os bolsos com cartuchos. Ninguém deixou de levar menos de 200 tiros. Os oficiais barbearam-se, ajustaram seus uniformes, e desfizeram-se das insígnias do grau militar. Naquele momento, eram todos soldados.

Às 13h30, antes de transpor as barricadas, Siqueira fala aos companheiros:

Eles têm que atirar primeiro... Não se dá nenhum tiro antes... Deixa eu conversar com quem chegar primeiro... Agora, se derem um tiro na gente, não precisam esperar ordem de fogo

           

17. Arrancada Final

Marcharam pela rua e a calçada que margeia a praia de Copacabana. A avenida Atlântica, na época, tinha poucas construções, mas não estava deserta.  No caminho falavam aos moradores sobre seus motivos. Lenços brancos eram acenados das janelas. De longe, oficiais e praças do 3º Regimento de Infantaria lhes gritavam que se rendessem. Foram assim até o hotel Londres, onde pararam para beber água. Já haviam percorrido mais de um quilômetro.

Ao reiniciar a marcha, Siqueira verifica que alguns haviam desistido. Mas isso já não tinha importância.

Antes de atingirem a rua Barroso, o jovem engenheiro gaúcho Otávio Correia se aproximou do grupo. Dirigindo-se a Siqueira, a quem conhecera na casa da escritora Rosalina Coelho Lisboa, falou:

Vou com vocês Antônio, preciso de uma arma...

Newton Prado entregou-lhe o fuzil que trazia e sacou a parabellum, que passou a empunhar na mão direita.

Ao chegarem na esquina da rua Barroso, hoje Siqueira Campos, uma surpresa. O tenente Segadas Viana, comandante de um dos três pelotões da 6ª Companhia do 3º Regimento de Infantaria, surge diante deles.

A 6ª Companhia, estacionada na praça Serzedelo Correia, havia recebido ordens de preparar-se para deter a marcha dos revolucionários, enquanto se providenciavam mais reforços. Seu comandante, o capitão Pedro Crisol Fernandes Brasil, dispôs então um pelotão na rua Barroso, comandado pelo tenente Segadas; outro na rua seguinte, Hilário de Gouveia, chefiado pelo tenente Miquelina; e o terceiro manteve na praça, sob comando do tenente Sawen.

Algum tempo depois, o tenente Segadas recebeu ordem de descer pela rua Barroso, em direção à praia, para observar a progressão dos reforços. Tendo atrás de si, a uns 30 metros, seu pelotão, logo que chegou na esquina deparou-se com os insurretos. Ao verem o tenente legalista, três soldados  tentaram dominá-lo. Ele sacou a arma, mas o tenente revolucionário Mário Carpenter, seu colega no 3º Regimento, ordenou aos praças que se detivessem. Enquanto isso, os 40 membros do pelotão apontavam suas armas contra os revoltosos e vice-versa.

Nessas circunstâncias iniciou-se um diálogo. Siqueira e Carpenter exortavam Segadas a acompanhá-los e este procurava fazer com que se rendessem. Esgotados os argumentos, o destacamento revolucionário retomou a marcha, mas, vindo da Hilário de Gouveia, surge o capitão Brasil que acaba dando a ordem de "fogo" ao pelotão do tenente Segadas. Um soldado obedeceu e disparou. A bala matou pelas costas o soldado Pedro Ferreira de Melo. Siqueira virou-se e devolveu o tiro. O combate começou.

 

18. Combate na Praia

Depois de sustentarem o tiroteio por alguns minutos em pé, na rua, os revolucionários pularam para a areia e se entrincheiraram por trás do paredão da calçada da avenida Atlântica. A esta altura, eram 15. Ali iriam se manter por mais de uma hora enfrentando o fogo combinado do Exército, da Polícia Militar e do Batalhão Naval.

Os pelotões do tenente Segadas e Miquelina, da 6ª Companhia, sofrem imediatamente várias baixas, inclusive seis mortes.

As forças legalistas acorrem em massa à praça Serzedelo Correia, em socorro aos pelotões do 3º Regimento de Infantaria. Até mesmo a tropa de guarda do Palácio do Catete foi deslocada para essa finalidade. Ao todo, 4.000 homens foram mobilizados contra os 18 do Forte.

Embora a desproporção entre as forças fosse esmagadora, o paredão representava excepcional proteção aos revolucionários. E a motivação com que pelejavam dava às suas ações a objetividade que faltava às forças governistas.

O voluntário Joaquim Maria Pereira Júnior, que sobreviveu ao combate, relatou:

"O tiroteio foi renhido, mas atirávamos com calma e precisamente... as forças do governo avançavam lentamente".

O primeiro revolucionário atingido pela fuzilaria foi Eduardo Gomes, o único que não sofreu um ferimento mortal. Teve o fêmur partido por uma bala, mas seguiu combatendo. Depois tombou o gaúcho Otávio Correia, com um tiro no coração.

Considerando a dificuldade de sufocar os revoltosos, foi cogitada a carga de baionetas. Os oficiais, no entanto, recusaram-se a empregá-la contra aqueles que, mesmo na condição de inimigos, lutavam tão corajosamente. Que se rendessem ou fossem mortos a tiros, nunca estripados.

A luta prosseguiu, até que a munição dos rebeldes se esgotou. Já havia caído o sargento José Pinto de Oliveira, com uma bala na fronte. O tenente Mário Carpenter, atingido no tórax, mergulhara na inconsciência. Estavam feridos também os praças Hildebrando da Silva Nunes e Manoel Antônio dos Reis - corneteiro, cujos toques de clarim vibravam duros golpes no moral das tropas governistas.

Siqueira Campos - com um ferimento na mão esquerda - e o tenente Newton Prado - baleado no abdome e na perna - ainda guardavam a última bala em seus revólveres. Aos demais combatentes já não restava nenhuma.

 

19. Retirada dos Praças

O tenente Siqueira Campos ordena, então, aos praças e voluntários civis, que que cada qual tome um rumo, mas não se deixem prender.

Dois conseguem fazê-lo com êxito.

O soldado 108, Manoel Ananias dos Santos, respirou fundo, saltou para cima do paredão e desviando-se das balas atravessou a avenida em busca de abrigo. "Os legalistas deram uma rajada contra mim, mas não acertaram", conta ele, quarenta e dois anos mais tarde ao jornalista Glauco Carneiro, da revista O Cruzeiro. "Consegui alcançar e pular o  muro de uma casa... havia no  jardim uma corda estendida com vários calções de banho." Disfarçado de banhista, ele conseguiu atravessar o túnel, por volta das 16h30, chegando em seguida à residência de um sargento, na rua Mena Barreto, Botafogo.

O voluntário Joaquim Maria Pereira Júnior escapou pelo mar:

"Esgotada a minha munição, ordenou o tenente Siqueira Campos que eu me retirasse... Atirei o meu fuzil ao mar e logo adiante nadei até um lugar abrigado, onde alguns operários humanitários me vestiram à paisana".

Preso, ao tentar romper o cerco, o soldado João Anastácio Falcão de Melo fez um significativo relato do acontecimento:

"Quando não tinha mais munição fui avançado, com um bruto ferimento na perna, mas com um punhal na mão. Me pegaram logo adiante e um oficial legalista me chamou de bandido. Aquilo moeu-me a alma. Lutara de peito descoberto contra gente armada em número muito superior e aquele homem a chamar-me de bandido! Depois, sendo da Paraíba, de uma terra em que  o  inimigo é seguro pelo nariz e degolado a frio, eu nunca tinha matado ninguém até aquele dia".

O inquérito policial registra também as prisões dos soldados Francisco Ribeiro de Freitas, Benedito José do Nascimento, Heitor Ventura da Silva e do civil Lourival Moreira da Silva. Em seus depoimentos eles admitem que estavam na praia no momento dos combates, porém negam terem feito uso das armas que portavam.

 

20. A Última Bala

Como os revolucionários não respondiam mais aos disparos, o capitão Brasil e o tenente Segadas Viana suspenderam o fogo e iniciaram um avanço lento e cuidadoso em sua direção. Já tinham caminhado cerca de vinte metros quando, repentinamente, um contingente de 100 homens do 3º Batalhão de Infantaria da Policia Militar, sob o comando do coronel Tertuliano Potiguara, sai da rua Barroso, em veículos de transporte apelidados de viuvinhas. Em alta velocidade, chegam ao local onde se encontram Siqueira Campos e seus companheiros.

Calar baioneta! Avançar! Foi a ordem de Potiguara.

Debaixo de uma gritaria infernal os atacantes se precipitam contra uma fortaleza sem muralhas guarnecida por mortos e feridos. Mas a surpresa ainda os espera.

A última bala do tenente Newton Prado é certeira, derrubando para sempre o atacante mais afoito. Siqueira aguarda até o último instante para disparar a sua, atingindo na boca o sargento Lindolfo Garcia Godinho que lhe enterrara a baioneta no fígado.

Levantem os vivos! Os vivos levantem! - uivam os comandados de Potiguara, tomados de histérico frenesi.

Não há quem os possa atender.

Junto ao corpo inerte do tenente Mário Carpenter jaz o seu quinhão da bandeira do Forte. Nele está escrito:

"Forte Copacabana - 6 de julho de 1922

Aos queridos pais ofereço um pedaço da nossa bandeira em defesa da qual resolvi dar o que podia…minha vida".

 

21. Epílogo

O jornal Gazeta de Notícias foi o primeiro a dar a notícia de que o número de heróis que participaram da saga foi de 18. Não seria a primeira nem a última vez em que o rigor histórico haveria de ceder lugar à lenda. Cantado em verso e  prosa, o feito dos 18 do Forte incendiou corações e mentes e ganhou a força do mito.

Apesar de mortalmente ferido, Siqueira Campos sobreviveu. Em breve estaria comprovando que não fora precipitado o juízo expresso pelo escritor Coelho Neto, no artigo Arrancada Radiante. Mesmo opondo-se aos objetivos do levante, ele conclui:

"Que povo não se orgulharia de possuir na raça tais leões?"

A oligarquia cafeeira perdera as condições de exercer tranqüilamente o seu poder autocrático. Mais radicais e mais amplas, novas revoluções se sucederiam até a sua derrocada em 1930.

 

Sérgio Rubens de Araújo Torres

Texto extraído da Hora do Povo

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